Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a paixão, como explica o roubo?
Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta d'um cadaver?
Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada! aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa! aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F… que não explicam nada, nada revelam, nada significam—a não ser a necessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas d'um jornal honesto.
Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia, houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!
O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.
Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosimeis invenções.—Z.
NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+
I
Senhor redactor.—A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era nas cartas do doutor *** designado pelo—mascarado mais alto.—Sou eu. Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre:—«Vi as accusações contra si e os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se não fizer isto, denuncio-me á policia.»
Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia das dores mais profundas d'um coração que estimo.