Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.
Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a graça. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do sol.
Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho sonho de se affogar n'aquelles olhos.
Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.
De resto, simples e espirituosa.
Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho. Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos n'essa noite o écarté; e ella terminou por fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancolicos.
—Estou hoje com os meus blue decils, dizia ella.
Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:
—Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem ar, não tem grammatica, não tem toilette, e todavia não é desagradavel.
Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu dog-cart.