O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas gravatas.
Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto heroico dos palacios, e a animação petulante das maltezas de grandes olhos arabes…
—Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.
—Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a
Malta. Venha tambem, primo.
—Está claro que vem! gritou o conde.
E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um navio, e que me deixava seu herdeiro.
Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados—mil planos incoherentes que nos faziam rir…
Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete da India.
Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude e no rosto.
—Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;—estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos…