Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos proximo da clareira.

Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e agua…

Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu.

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

—Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!

—Está rindo, capitão…

—Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

—Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.

—Só hoje?

—Sempre, e bem sabe por quê.