—Tomai gomma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Persia e vinho negro de Emmaus… Misturai, cozei… Deixai esfriar n'um vaso de prata… Collocai-vos n'uma encruzilhada, ao nascer do sol…
Mas emmudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lages. Penetráramos no soberbo adro, chamado «Pateo das Mulheres»: e n'esse instante terminavam as Bençãos que á sexta hora um sacerdote vem alli derramar do alto da porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze—ella deixava entrevêr, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do Santuario refulgindo com serenidade… Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas collegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco—uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de lyras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emmaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão…
A sua tunica justa de byssus tinha a fimbria orlada de pinhas d'esmeralda, alternando com guizos que tiniam finamente; os pés sem sandalias e tingidos d'heneh pareciam de coral; e ao meio da facha que lhe cingia as costellas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fieis ajoelhados, quedos, sem um murmurio, quasi pousavam nas lages a cabeça escondida sob os mantos e sob os véos: e com as côres festivas, onde dominava o vermelho da anemona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flôres e folhagens, n'uma manhã de triumpho, para passar Salomão!
Com a barba aguda e dura levantada aos céos—o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do Occidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do Santuario os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de joias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol—e com o fumo branco veio rolando tenue e cheirosa, sobre Israel, a benção do Muito-Forte. Então os levitas, unisonamente, feriram as cordas das lyras: das trombetas curvas subiu um grito de bronze: e todo o povo erguido, com os braços ao céo, entoou um psalmo celebrando a eternidade de Judá… E subitamente tudo cessou: os Levitas recolhiam pela escadaria de marmore sem um rumor dos pés nús: Eliezer de Silo e o rigido Gamaliel tinham desapparecido sob os Porticos: e o claro pateo em redor resplandecia sumptuoso e cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos que Topsius mirava n'elles como n'um espelho as pregas nobres da sua capa: todos os fructos da Asia e as flôres dos vergeis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das camaras rituaes onde se perfuma o oleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra: entre as columnas pendiam em festões fios grossos de perolas e de contas d'onyx, mais numerosos que no peito de uma noiva: e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossaes, pousadas nas lages, enrolavam-se, scintillando e reclamando as dadivas, inscripções em relevo de ouro, graciosas como versos de canticos—Queimai Incensos e Nardos, Offertai Pombas e Rôlas…
Mas o santo adro resplandecia de mulheres: e meus olhos bem depressa deixaram metaes e marmores, para captivadamente se prenderem áquellas filhas de Jerusalem, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no Templo o rosto descoberto: ou apenas um fôfo véo, d'uma musselina leve como o ar, á moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura d'espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto mais humido, enlanguecidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cypro. A abundancia barbara dos ouros, das pedrarias, envolvia-as n'uma radiancia tremula desde os peitos fortes até aos cabellos mais crespos que a lã das cabras de Galaad. As sandalias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lages uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves: e os tecidos bordados, os algodões de Galacia, os finos linhos de côres que as cingiam, ensopados nas escencias ardentes d'ambar, de malobathro e de baccaris, enchiam o ar de fragancia e de molleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solemnemente entre escravas vestidas de panos amarellos, que lhes traziam o párasol de pennas de pavão, os rolos devotos em que está escripta a Lei, saccos de tamaras dôces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicôr, e sem mais joias que um rude talisman de coral, corriam, chalravam, mostrando nús os braços e o collo côr de medronho mal maduro… E sobre todas o meu desejo zumbia—como uma abelha que hesita entre flôres de igual doçura!
—Ai Topsius, Topsius! rosnava eu. Que mulheres! Que mulheres! Eu estoiro, esclarecido amigo!
O sabio affirmava com desdem que ellas não tinham mais intellectualidade que os pavões dos jardins d'Antipas; e que nenhuma decerto alli lêra Aristoteles ou Sophocles!… Eu encolhia os hombros. Oh esplendor dos céos! por qual d'estas mulheres que não lêra Sophocles não daria eu, se fosse Cesar, uma cidade de Italia e toda a Iberia! Umas entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela sumptuosidade solida e succulenta da sua belleza. Que largos, escuros olhos d'idolos! Que claros, macios membros de marmore! Que sombria molleza! Que nudezes magnificas, quando á beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabellos pesados, e fossem dôcemente escorregando os véos e os linhos de Galacia!…
Foi necessario que Topsius me arrastasse pelo albornoz para a escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando para traz os olhos esbrazeados, resfolgando como um touro em maio nas lezirias.