—Ai, filhinhas de Sião! Que sois de vos deixar aqui os miolos!
Ao voltar-me, puxado pelo douto Historiador, bati no focinho d'um cordeiro branco que um velho conduzia ás costas, amarrado pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa balaustrada de cédro lavrado—onde uma cancella toda de prata, aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silencio, faiscando.
—É aqui, disse o erudito Topsius, que se dão a beber as aguas amargas ás mulheres adulteras… E agora, D. Raposo, ahi tem Israel adorando o seu Deus.
Era emfim o Adro Sacerdotal! E eu estremeci diante d'aquelle Santuario entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras, o altar dos Holocaustos: aos seus cantos enristavam-se quatro cornos de bronze; d'um pendiam grinaldas de lirios; d'outros fios de coraes; o outro pingava sangue. Da immensa grelha do altar subia uma fumaça avermelhada e lenta: e em redor apinhavam-se os Sacrificadores, descalços, todos de branco—com forquilhas de bronze nas mãos pallidas, espetos de prata, facas passadas nos cintos côr de céo… No afanoso, severo rumôr do ceremonial sacrosanto confundia-se o balar de cordeiros, o som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas surdas de malho, o cantar lento da agua em bacias de marmore, e o estridor das bozinas. Apesar dos aromaticos que ardiam em caçoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que os serventes agitavam o ar, eu puz o lenço na face, enjoado com esse cheiro molle de carne crua, de sangue, de gordura frita e de açafrão, que o Senhor reclamou a Moysés como o dom melhor a receber da Terra…
Ao fundo, bois enfeitados de flôres, vitellas brancas com os cornos dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que os prendiam a fortes argolas de bronze: mais longe, sobre mesas de marmore, entre pedaços de gêlo, pousavam, vermelhas e sangrentas, grossas peças de carne, sobre que os levitas balançavam leques de pennas para afugentar os moscardos. De columnas rematadas por faiscantes globos de crystal, pendiam cordeiros mortos, que os Netenins, resguardados por aventaes de couro cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata: emquanto os victimarios de saião azul, retesando os braços, conduziam baldes d'onde trasbordavam e iam arrastando entranhas. Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos idumeos constantemente limpavam as lages com esponjas: alguns vergavam sob mólhos de lenha; outros, agachados, sopravam fogareiros de pedra.
A cada momento algum velho Sacrificador, descalço, marchava para o altar, trazendo ao collo um anho tenro que não balava, contente e quente entre os dois braços nús: um tocador de lyra precedia-o: levitas atraz transportavam os jarros d'oleos aromaticos. Em frente á ara, rodeado de Acolytos, o Sacrificador lançava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois, psalmodiando, cortava-lhe uma pouca de lã entre os cornos. As bozinas resoavam; um grito d'animal ferido perdia-se no tumulto sacro; por cima das tiáras brancas duas mãos vermelhas erguiam-se ao ar sacudindo sangue; da grelha do altar resaltava, avivada pelos oleos e pela gordura, uma chamma d'alegria e de offerta; e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.
—É um talho! murmurei eu, aturdido. É um talho! Topsius, doutor, vamos outra vez lá baixo ás mulherinhas…
O sabio olhou para o sol. Depois, gravemente, pousando-me no hombro a mão amiga:
—É quasi a nona hora, D. Raposo!… E temos de ir fóra da Porta Judiciaria, para além do Gareb, a um sitio agreste que se chama o Calvario.
Empallideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada acquisição enriqueceria o saber de Topsius—por irmos contemplar no alto d'um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e soffrendo: era apenas um tormento para a nossa sensibilidade! Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das Aguas, que leva ao largo lageado de basalto onde começam as primeiras casas d'Acra. Visinhas do Santuario, habitadas por Sacerdotes, ellas ostentavam uma profusa devoção Paschal, em palmas, lampadas, alcatifas penduradas dos eirados: e algumas tinham os hombraes salpicados com o sangue fresco d'um anho.