Antes de penetrar n'uma sordida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldes de esparto, voltei-me para o Templo: agora só via a immensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubavel: e a arrogancia da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Emquanto sobre uma collina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galilêa, incomparavel amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquella pura voz de amor e d'espiritualidade—alli ficava o Templo que o matava, rutilante e triumphal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sophismas, a usura sob os Porticos, o sangue sobre as Aras, a iniquidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perenne incenso… Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jehovah e á sua cidadella, e bradei:
—Arrasados sejaes!
* * * * *
Não descerrei mais os labios sêccos até chegarmos á estreita porta nas muralhas de Ezekiah, que os Romanos denominavam a Judiciaria. E logo ahi estremeci, vendo collado n'um pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcriptas—«a d'um ladrão de Bettebara, a d'um assassino de Emath, e a de Jesus de Galilêa!» O escriba do Sanhedrin, que conforme á Lei alli vigiára para recolher, até que os condemnados passassem, algum inesperado testemunho d'inculpabilidade, ia partir, com os seus tabularios debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquelle córte final, côr de sangue, passado á pressa por um escripturario que recolhia contente á sua morada, a comer o seu anho, commoveu-me mais que a melancolia dos Livros Santos.
Sebes de cactos em flôr bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo alli resplandecia, festivo e pacifico. Á sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos d'alfazema e manjerona que se offerecem na Paschoa: e crianças em redor, com o pescoço carregado d'amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam á setta… Pela estrada descia uma fila de lentos dromedarios levando mercadorias para Joppé: dois homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhe a côxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e d'abutres amarrados pelas patas: e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao hombro d'uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lyra grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma corôa de louro…
Ao fundo d'um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante d'uma cancella pintada de vermelho, dois servos esperavam, sentados n'um tronco cahido, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius parou, puxou-me o albornoz:
—É este o horto de José de Ramatha, um amigo de Jesus, membro do
Sanhedrin, homem d'espirito inquieto, que se inclina para os Essenios…
E justamente, ahi vem Gad!
Do fundo do horto, com effeito, por uma rua de murta e rosas, Gad descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vime enfiados n'um pau. Parámos.
—O Rabbi? gritou-lhe o alto Historiador, transpondo a cancella.
O Essenio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de myrrha e d'hervas aromaticas; e ficou diante de nós um momento, tremulo, suffocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a anciedade.