Quando n'essa noite acampámos em Bethel, vinha a lua cheia sahindo por traz dos montes negros de Gilead… O festivo Potte mostrou-me logo o chão sagrado em que Jacob, pastor de Bersabé, tendo adormecido sobre uma rocha, vira uma escada que faiscava, fincada a seus pés e arrimada ás estrellas, por onde ascendiam e baixavam, entre terra e céo, anjos calados, com as azas fechadas… Eu bocejei formidavelmente e rosnei:—«Tem seu chic!…»

E assim rosnando e bocejando, atravessei a terra dos prodigios. A graça dos valles foi-me tão fastidiosa como a santidade das ruinas. No poço de Jacob, sentado nas mesmas pedras em que Jesus, cansado como eu da calma d'estas estradas e como eu bebendo do cantaro d'uma Samaritana, ensinára a nova e pura maneira de adorar; nas encostas do Carmello, n'uma cella de mosteiro, ouvindo de noite ramalhar os cedros que abrigaram Elias, e gemerem em baixo as ondas, vassallas de Hyram rei de Tyro; galopando com o albornoz ao vento pela planicie de Esdrelon; remando dôcemente no lago de Grenesareth, coberto de silencio e de luz—sempre o Tedio marchou a meu lado como companheiro fiel, que a cada passo me apertava ao seu peito molle, debaixo do seu manto pardo…

Ás vezes, porém, uma saudade fina e gostosa, vinda do remoto Passado, levantava de leve a minha alma, como uma aragem lenta faz a uma cortina muito pesada… E então, fumando diante das tendas, trotando pelo leito sêcco das torrentes, eu revia, com deleite, pedaços soltos d'essa Antiguidade que me apaixonára:—a Therma romana onde uma creatura maravilhosa de mitra amarella se offertava, lasciva e pontifical; o formoso Manassés levando a mão á espada cheia de pedrarias; mercadores, no Templo, desdobrando os brocados de Babylonia; a sentença do Rabbi com um traço vermelho, n'um pilar de pedra, á porta Judiciaria; ruas illuminadas, gregos dançando a callabida… E era logo um desejo angustioso de remergulhar n'esse mundo irrecuperavel. Coisa risivel! eu, Raposo e bacharel, no farto gozo de todos os confortos da Civilisação—tinha saudade d'essa barbara Jerusalem que habitára n'um dia do mez de Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa!

Depois estas memorias esmoreciam como fogos a que falta a lenha. Na minha alma só restavam cinzas—e, diante das ruinas do monte Ebal ou sob os pomares que perfumam Sichem a Levitica, recomeçava a bocejar.

Quando chegámos a Nazareth, que apparece na desolação da Palestina como um ramalhete pousado na pedra d'uma sepultura—nem me interessaram as lindas judias por quem se banhou de ternura o coração de Santo Antonino. Com a sua cantara vermelha ao hombro, ellas subiam por entre os sycomoros á fonte onde Maria, mãi de Jesus, ia todas as tardes, cantando como estas e como estas vestida de branco… O jocundo Potte, torcendo os bigodes, murmurava-lhes madrigaes; ellas sorriam, baixando as pestanas pesadas e meigas. Era diante d'esta suave modestia que Santo Antonino, apoiado ao seu bordão, sacudindo a sua longa barba, suspirava: «Oh virtudes claras, herdadas de Maria cheia de graça!» Eu, por mim, rosnava seccamente: «lambisgoias»!

Através de viellas onde a vinha e a figueira abrigam casas humildes, como convém á dôce aldeia d'aquelle que ensinou a humildade, trepámos ao cimo de Nazareth, batido sempre do largo vento que sopra das Idumeias. Ahi Topsius tirou o barrete saudando essas planicies, esses longes, que decerto Jesus vinha contemplar, concebendo diante da sua luz e da sua graça as incomparaveis bellezas do reino de Deus… O dedo do douto Historiador ia-me apontando todos os lugares religiosos—cujos nomes sonoros cahem na alma com uma solemnidade de prophecia ou com um fragor de batalha: Esdrelon, Endor, Sulem, Thabor… Eu olhava, enrolando um cigarro. Sobre o Carmello sorria uma brancura de neve; as planicies da Perea fulguravam, rolando uma poeira de ouro; o golfo de Kaipha era todo azul; uma tristeza cobria ao longe as montanhas de Samaria; grandes aguias torneavam sobre os valles… Bocejando, rosnei:

—Vistasinha catita!

Uma madrugada, emfim, recomeçámos a descer para Jerusalem. Desde Samaria a Ramah fomos alagados por esses vastos e negros chuveiros da Syria que armam logo torrentes rugindo entre as rochas, sob os aloendros em flôr: depois, junto á collina de Gibeah onde outr'ora no seu jardim, entre o loiro e o cypreste, David tangia harpa olhando Sião—tudo se vestiu, de serenidade e de azul. E uma inquietação engolfou-se em minha alma como um vento triste n'uma ruina… Eu ia avistar Jerusalem! Mas—qual? Seria a mesma que vira um dia, resplandecendo sumptuosamente ao sol de Nizam, com as torres formidaveis, o Templo côr de ouro e côr de neve, Acra cheia de palacios, Bezetha regada pelas aguas d'Enrogel?…

—El-Kurds! El-Kurds! gritou o velho beduino, com a lança no ar, annunciando pela sua alcunha musulmana a cidade do Senhor.

Galopei, a tremer… E logo a vi, lá em baixo, junto á ravina do Cedron, sombria, atulhada de conventos e agachada nas suas muralhas caducas—como uma pobre, coberta de piolhos, que para morrer se embrulha a um canto nos farrapos do seu mantéo.