Bem depressa, transpassada a Porta de Damasco, as patas dos nossos cavallos atroaram o lagedo da rua Christã: rente ao muro um frade gordo, com o breviario e o guardasol de paninho entalados sob o braço, ia sorvendo uma pitada estrondosa. Apeámos no Hotel do Mediterraneo: no esguio pateo, sob um annuncio das «Pilulas Holloway» um inglez, com um quadrado de vidro collado ao olho claro, os sapatões atirados para cima do divan de chita, lia o Times; por traz d'uma varanda aberta, onde seccavam ceroulas brancas com nodoas de café, uma goela roufenha vozeava: C'est le beau Nicolas, holà!… Ah! era esta, era esta, a Jerusalém Catholica!… Depois ao penetrar no nosso quarto, claro e alegrado pelo tabique de ramagens azues, ainda um instante me rebrilhou na memoria certa sala, com candelabros d'ouro e uma estatua d'Augusto, onde um homem togado estendia o braço e dizia: «Cesar conhece-me bem!»
Corri logo á janella a sorver o ar vivo da moderna Sião. Lá estava o convento com as suas persianas verdes fechadas, e as gotteiras agora mudas n'esta tarde de sol e doçura… Entre socalcos de jardins, lá se torciam as escadinhas, cruzadas por Franciscanos d'alpercatas, por judeus magros de sujas melenas… E que repouso na frescura d'estas paredes de cella depois das estradas abrazadas de Samaria! Fui apalpar a cama fofa. Abri o guarda-roupa de mogno. Fiz uma caricia leve ao embrulhinho da camisa da Mary, redondo e gracioso com o seu nastro vermelho, aninhado entre piugas.
N'esse instante o jocundo Potte entrou a trazer-me o precioso embrulho da Corôa d'Espinhos, redondo e nitido com o seu nastro vermelho; e alegremente deu-me as novas de Jerusalem. Colhera-as do barbeiro da Via-Dolorosa e eram consideraveis. De Constantinopla viera um firman exilando o Patriarcha grego, pobre velho evangelico, com uma doença de figado, que soccorria os pobres. O snr. consul Damiani affirmára na loja de reliquias da rua Armenia, batendo o pé, que antes do dia de Reis, por causa da birra do murro entre os Franscicanos e a Missão Protestante, a Italia tomaria armas contra a Allemanha. Em Bethlem, na egreja da Natividade, um padre latino n'uma bulha, ao benzer hostias, rachára a cabeça d'um padre copta com uma tocha de cera… E enfim, novidade mais jubilosa, abrira-se para alegria de Sião, ao pé da porta de Herodes, deitando sobre o valle de Josaphat, um café com bilhares, chamado o Retiro do Sinai!
Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam a alma foram varridas por um fresco vento de mocidade e de modernidade… Pulei sobre o ladrilho sonoro:
—Viva o bello Retiro! A elle! ás iscas! á carambola! Irra! que estava morto por me refestellar! E depois ás mulherinhas!… Põe ahi o embrulho da Corôa, bello Potte… Isso significa muito bago! Jesus, o que ahi a titi se vai babar!… Planta-o em cima da commoda, entre os castiçaes… E logo, depois da comidinha, Pottesinho, para o Retiro do Sinai!
Justamente o sabio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa nova historica! Durante a nossa romagem a Galilêa, a Commissão de Excavações Biblicas encontrára, sob lixos seculares, uma das lapides de marmore que, segundo Josepho e Philon e os Talmuds, se erguiam no Templo, junto á Porta Bella, com uma inscripção prohibindo a entrada aos Gentilicos… E elle instava que marchassemos, engolida a sopa, a pasmar para essa maravilha… Um momento ainda me rebrilhou na memoria uma Porta, bella em verdade, preciosa e triumphal, sobre os seus quatorze degraus de marmore verde de Numidia…
Mas sacudi desabridamente os braços, n'uma revolta:
—Não quero! gritei. Estou farto!… Irra! E aqui lh'o declaro, Topsius, solemnemente: de hoje em diante não torno a vêr nem mais um pedregulho, nem mais um sitio de Religião… Irra! Tenho a minha dóse: e forte, muito forte, doutor!
O sabio, enfiado, abalou com a rabona collada ás nádegas.
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