N'essa semana occupei-me em documentar e empacotar as Reliquias Menores que destinava á tia Patrocinio. Copiosas e bem preciosas eram ellas—e com devotissimo lustre brilhariam no thesouro da mais orgulhosa Sé! Além das que Sião importa de Marselha em caixotes—rosarios, bentinhos, medalhas, escapularios; além das que fornecem no Santo Sepulcho os vendilhões—frascos d'agua do Jordão, pedrinhas da Via Dolorosa, azeitonas do Monte Olivete, conchas do lago de Genesareth—eu levava-lhe outras raras, peregrinas, ineditas… Era uma taboinha aplainada por S. José; duas palhinhas do curral onde nasceu o Senhor; um bocadinho do cantaro com que a Virgem ia á fonte; uma ferradura do burrinho em que fugiu a Santa Familia para a terra do Egypto; e um prégo torto e ferrugento…
Estas preciosidades, embrulhadas em papeis de côr, atadas com fitinhas de sêda, guarnecidas de tocantes disticos—foram acondicionadas n'um forte caixote, que a minha prudencia fez revestir de chapas de ferro. Depois cuidei da Reliquia Maior, a Corôa de Espinhos, fonte de celestiaes mercês para a titi—e de sonora pecunia para mim, seu cavalleiro e seu romeiro.
Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa. Topsius aconselhava o cedro do Libano—tão bello que por elle Salomão fez alliança com Hyram rei de Tyro. O jocundo Potte porém, menos archeologico, lembrou o honesto pinho de Flandres benzido pelo Patriarcha de Jerusalem. Eu diria á titi que os prégos para o pregar tinham pertencido á Arca de Noé: que um Ermitão os achára miraculosamente no monte Ararat; que a ferragem que n'elles deixára o lodo primitivo, dissolvida em agua benta, curava catarrhos… Tramámos estas coisas consideraveis, cervejando no Sinai.
Durante esta atarefada semana, o embrulho da Corôa d'Espinhos permanecera na commoda entre os dois castiçaes de vidro: foi só na vespera de deixarmos Jerusalem que o encaixotei com carinho. Forrei a madeira de chita azul, comprada na Via Dolorosa; fiz fôfo e dôce o fundo do caixote com uma camada d'algodão mais branco que a neve do Carmello; e colloquei dentro o adoravel embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjára, no seu papel pardo e no seu nastro vermelho—porque estas mesmas dobras do papel vincadas em Jerichó, este mesmo nó do nastro atado junto ao Jordão, teriam para a snr.^a D. Patrocinio um insubstituivel sabor de devoção… O esguio Topsius considerava estes piedosos aprestes, fumando o seu cachimbo de louça.
—Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga lá, amiguinho, diga lá! Então acha que eu posso affirmar á titi que esta Corôa d'Espinhos foi a mesma que…
O doutissimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma solidissima maxima:
—As reliquias, D. Raposo, não valem pela authenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram. Póde dizer á titi que foi a mesma!
—Bemdito sejas, doutor!
N'essa tarde, o erudito homem acompanhára aos Tumulos dos Reis a Commissão de Excavações. Eu parti, só, para o Horto das Oliveiras—porque não havia, em torno a Jerusalem, lugar de sombra onde mais gratamente em tardes serenas gozasse um pachorrento cachimbo.
Sahi pela porta de Santo Estevão; trotei pela ponte do Cedron; galguei o atalho entre piteiras até ao murosinho, caiado e aldeão, que cerra o jardim de Gethsemani. Empurrei a portinha verde, pintada de fresco, com a sua aldraba de cobre: e penetrei no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu sob a folhagem das Oliveiras. Alli vivem ainda, essas arvores santas que ramalharam embaladoramente sobre a sua cabeça fatigada do mundo! São oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas de madeira, amodorradas, já esquecidas d'essa noite de Nizam em que os anjos, voando sem rumor, espreitavam através dos seus ramos as desconsolações humanas do filho de Deus… Nos buracos dos seus troncos estão guardados enxós e podões: nas pontas dos galhos raras e tenues folhinhas, d'um verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos d'um moribundo.