Ella deu um ai, d'infinito desalento. Ia mal, ia mal… Cada dia se sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer… Emfim já não morria sem aquelle gostinho de me ter mandado a Jerusalem visitar o Senhor; e esperava que elle lh'o levasse em conta, e as despezas que fizera, e o que lhe custára a separação… Mas ia mal, ia mal!
Eu desviára a face, a esconder o vivo e escandaloso lampejo de jubilo que a illuminára. Depois animei-a, com generosidade. Que podia a titi recear? Não tinha ella agora, «para se apegar», vencer as leis da decomposição natural, aquella reliquia de Nosso Senhor?…
—E outra coisa, titi… Os amiguinhos, como vão?
Ella annunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato, o delicioso Casimiro, recolhera á cama no domingo com as «perninhas inchadas…» Os doutores affirmavam que era uma anasarca… Ella desconfiava d'uma praga que lhe rogára um gallego…
—Seja como fôr, o santinho lá está! Tem-me feito uma falta, uma falta… Ai filho, nem tu imaginas!… O que me tem valido é o sobrinho, o padre Negrão…
—O Negrão? murmurei, estranho ao nome.
Ah! eu não conhecia… Padre Negrão vivia ao pé de Torres. Nunca vinha a Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxação… Só por ella, e para a ajudar nos seus negocios, é que o santinho condescendera em deixar a sua aldeia. E tão delicado, tão serviçal… Ai! era uma perfeição!
—Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho… Só o que elle tem rezado por ti, para que Deus te protegesse n'essas terras de turcos… E a companhia que me faz! Que todos os dias o tenho cá a jantar… Hoje não quiz elle vir. Até me disse uma coisa muito linda: «não quero, minha senhora, atalhar expansões.» Que lá isso, fallar bem, e assim coisas que tocam… Ai, não ha outro… Nem imaginas, até regala… É de appetite!
Sacudi o cigarro, seccado. Porque vinha aquelle padre de Torres, contra os costumes domesticos, comer todos os dias o cozido da titi? Resmunguei com auctoridade:
—Lá em Jerusalem os padres e os patriarchas só vêm jantar aos domingos… Faz mais virtude.