Escurecera. A Vicencia accendeu o gaz no corredor: e como breve chegariam os dilectos amigos, avisados pela titi para saudar o Peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca preta.
Ahi, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente e pensei:—«Ah Theodorico, venceste!»
Sim, vencera! Como a titi me tinha acolhido! com que veneração! com que devoção!…—E ia mal, ia mal!… Bem depressa eu sentiria, com o coração suffocado de gozo, as martelladas sobre o seu caixão. E nada podia desalojar-me do testamento da snr.^a D. Patrocinio! Eu tornára-me para ella S. Theodorico! A hedionda velha estava emfim convencida que deixar-me o seu ouro—era como doal-o a Jesus e aos Apostolos e a toda a Santa Madre Egreja!
Mas a porta rangeu—a titi entrou, com o seu antigo chale de Tonkin pelos hombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D. Patrocinio das Neves d'outro tempo, hirta, agreste, esverdeada, odiando o amor como coisa suja, e sacudindo de si para sempre os homens que se tinham mettido com saias! Com effeito! Os seus oculos, outra vez sêccos, reluziam, cravavam-se desconfiadamente na minha mala… Justos céos! Era a antiga D. Patrocinio. Lá vinham, as suas lividas, aduncas mãos, cruzadas sobre o chale, arrepanhando-lhe as franjas, sôfregas de esquadrinhar a minha roupa branca! Lá se cavava, aos cantos dos seus labios sumidos, um rigido sulco d'azedume!… Tremi: mas visitou-me logo uma inspiração do Senhor. Diante da mala, abri os braços, com candura:
—Pois é verdade!… Aqui tem a titi a maleta que lá andou por Jerusalem… Aqui está, bem aberta, para todo o mundo vêr que é a mala d'um homem de religião! Que é o que dizia o meu amigo allemão, pessoa que sabia tudo: «Lá isso, Raposo, meu santinho, quando n'uma viagem se peccou, e se fizeram relaxações, e se andou atraz de saias, trazem-se sempre provas na mala. Por mais que se escondam, que se deitem fóra, sempre lá esquece coisa que cheire a peccado!…» Assim m'o disse muitas vezes, até uma occasião diante d'um Patriarcha… E o Patriarcha approvou. Por isso, eu cá, é malinha aberta, sem receio… Póde-se esquadrinhar, póde-se cheirar… A que cheira é a religião! Olhe, titi, olhe… Aqui estão as ceroulinhas e as piuguinhas. Isso não póde deixar de ser, porque é peccado andar nú… Mas o resto, tudo santo! O meu rosario, o livrinho de missa, os bentinhos, tudo do melhor, tudo do Santo Sepulchro…
—Tens alli uns embrulhos! rosnou a asquerosa senhora, estendendo um grande dedo descarnado.
Abri-os logo, com alacridade. Eram dois frascos lacrados d'agua do Jordão! E muito sério, muito digno, fiquei diante da snr.^a D. Patrocinio com uma garrafinha do liquido divino na palma de cada mão… Então ella, com os oculos de novo embaciados, beijou penitentemente os frascos: uma pouca da baba do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois, á porta, suspirando, já rendida:
—Olha, filho, até estou a tremer… E é d'estes gostinhos todos!
Sahiu. Eu fiquei coçando o queixo. Sim, ainda havia uma circumstancia que me escorraçaria do testamento da titi! Seria apparecer diante d'ella, material e tangivel, uma evidencia das minhas relaxações… Mas como surgiria ella jámais n'este logico Universo? Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos d'uma fogueira apagada que nenhum esforço póde novamente condensar. E o meu derradeiro peccado—saboreado tão longe, no velho Egypto, como chegaria jámais á noticia da titi? Nenhuma combinação humana lograria trazer ao campo de Sant'Anna as duas unicas testemunhas d'elle—uma luveira occupada agora a encostar as papoilas do seu chapéo aos granitos de Raméses em Thebas, e um Doutor encafuado n'uma rua escolastica, á sombra d'uma vetusta Universidade da Allemanha, escarafunchando o cisco historico dos Herodes… E, a não ser essa flôr de deboche e essa columna de sciencia, ninguem mais na terra conhecia os meus culpados delirios na cidade amorosa dos Lagidas.
Demais, o terrvel documento da minha juncção com a sordida Mary, a camisa de dormir aromatisada de violeta, lá cobria agora em Sião uma languida cinta de circassiana ou os seios côr de bronze d'uma nubia de Koskoro: a compromettedora offerta «ao meu portuguezinho valente» fôra despregada, queimada no brazeiro: já as rendas se iriam esgaçando no serviço forte do amor; e rôta, suja, gasta, ella bem depressa seria arremessada ao lixo secular de Jerusalem! Sim, nada se poderia interpôr entre a minha justa sofreguidão e a bolsa verde da titi. Nada, a não ser a carne mesma da velha, a sua carcassa rangente, habitada por uma teimosa chamma vital, que se não quizesse extinguir!… Oh fado horrivel! Se a titi, obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem os cravos do outro anno! E então não me contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente, em toda a ancia do meu desejo: