Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.

—Relaxações em minha casa não admitto! Quem quizer viver aqui ha de estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, emquanto eu fôr viva! E quem não lhe agradar, rua!

Sob a rajada estridente da indignação da snr.^a D. Patrocinio, padre Pinheiro e o tabellião Justino tinham dobrado a cabeça embaçados. O dr. Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador, influente e suave.

—D. Patrocinio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa…
Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no
Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios…

Exclamei amargamente:

—Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma tia, uma commendadeira… Estivemos á espera, a passear no pateo… A irmã vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que ella está… Eu morto por me safar, mas com ceremonia do rapaz, que é sobrinho do barão d'Alconchel… E elle zás, zás, a fallar da irmã, e do namoro, e das cartas…

A tia Patrocinio uivou de furor.

—Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa para o pateo d'uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até devias ter vergonha!… E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão…

Então o dr. Margaride estendeu a mão pacificadora e solemne:

—Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio onde esteve é respeitavel… E eu conheço o barão d'Alconchel. É um cavalheiro da maior circumspecção, e um dos mais abastados do Alemtejo… Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal… O mais rico, direi!… Mesmo lá fóra não haverá fortuna territorial que lhe exceda. Nem que se lhe compare!… Só em porcos! Só em cortiça! Centenares de contos! milhões!