Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras d'ouro. E o bom
Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:

—Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia que a tia não deseja senão o seu bem…

Puxei, com a mão a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a nascer, forte, respeitavel e negra.

Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G. Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi! Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!…

Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.

* * * * *

Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao sêllo dentro do seu relicario.

—Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê não lhe faltes…

Corri logo ao oratorio, com o canudo na mão, agradecer ao Christo de ouro o meu glorioso grau de bacharel.

Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e a esfregar as mãos.