Mas Negrão, com sinuosa perfidia, notou que mais proveitoso seria, e de maior unção repassaria as almas—escutar coisas de festas, de milagres, de penitencias…

—Estou seguindo o meu itinerario, snr. padre Negrão, repliquei asperamente.

—Como fez Chateaubriand, como fazem todos os famosos auctores! confirmou Margaride, approvando.

E foi com os olhos n'elle, como no mais douto, que eu disse a partida de Alexandria n'uma tarde de tormenta: o tocante momento em que uma santa irmã da Caridade (que estivera já em Lisboa e que ouvira fallar da virtude da titi) me salvára das aguas salgadas um embrulho em que eu trazia terra do Egypto, da que pisára a Santa Familia: a nossa chegada a Jaffa, que, por um prodigio, apenas eu subira ao tombadilho, de chapéo alto e pensando na titi, se coroára de raios de sol…

—Magnifico! exclamou o dr. Margaride. E diga, meu Theodorico… Não tinham comsigo um sabio guia, que lhes fosse apontando as ruinas, lhes fosse commentando…

—Ora essa, dr. Margaride! Tinhamos um grande latinista, o padre Potte!

Remolhei o labio. E disse as emoções da gloriosa noite em que acampáramos junto a Ramleh, com a lua no céo alumiando coisas da religião, beduinos velando de lança ao hombro, e em redor leões a rugir…

—Que scena! bradou o dr. Margaride, erguendo-se arrebatadamente. Que enorme scena! Não estar eu lá! Parece uma d'estas coisas grandiosas da Biblia, do Eurico! É d'inspirar! Eu por mim, se tal visse, não me continha!… Não me continha, fazia uma ode sublime!

O Negrão puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:

—É melhor deixar fallar o nosso Theodorico, para podermos todos saborear…