—Uma bulha! acudiu com perversidade o vil Negrão, ancioso por empanar o brilho de santidade com que eu deslumbrava a titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Christo! Ora essa! Que desacato!

Com os dentes cerrados encarei o torpissimo padre:

—Sim senhor! um chinfrim!… Mas fique v. s.^a sabendo que o snr. patriarcha de Jerusalem me deu toda a razão, até me bateu no hombro e me disse: «Pois Theodorico, parabens, vossê portou-se como um pimpão!» Que tem agora v. s.^a a piar?

Negrão curvou a cabeça, onde a corôa punha uma lividez azulada de lua em tempo de peste:

—Se Sua Eminencia approvou…

—Sim senhor! E aqui tem a titi porque foi a bulha!… No quarto ao lado do meu havia uma ingleza, uma hereje, que mal eu me punha a rezar, ahi começava ella a tocar piano, e a cantar fados e tolices e coisas immoraes do Barba-Azul, dos theatros… Ora imagine a titi, estar uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: «Oh Santa Maria do Patrocinio, faze que a minha boa titi tenha muitos annos de vida»—e vir lá de traz do tabique uma voz d'excommungada a ganir: «Sou o Barba-Azul, olê! ser viuvo é o meu filé!…» É d'encavacar!… De modo que uma noite, desesperado, não me tenho em mim, sáio do corredor, atiro-lhe um murro á porta, e grito-lhe para dentro: «Faz favor d'estar calada, que está aqui um christão que quer rezar!…»

—E com todo o direito, affirmou o dr. Margaride. Vossê tinha por si a lei!

—Assim, me disse o Patriarcha! Pois senhores, como ia contando, grito isto para dentro á mulher, e ia recolher muito sério ao meu quarto, quando me sae de lá o pai, um grande barbaças, de bengalorio na mão… Eu fui muito prudente: cruzei os braços e, com bons modos, disse-lhe que não queria alli escandalos ao pé do tumulo de Nosso Senhor, e o que desejava era rezar em socego… E vai que me ha de elle responder? Que se estava a… Emfim, nem eu posso repetir! Uma coisa indecente contra o tumulo de Nosso Senhor… E eu, titi, passa-me uma oura pela cabeça, agarro-o pelo cachaço…

—E magoaste-o, filho?

—Escavaquei-o, titi!