—Á sua!

—Com a ajuda do Senhor!… Á sua!

Por cortezia, rilhado o queijo, convidei aquelle homem que graças a Deus tinha religião, a entrar no meu quarto e admirar as photographias de Jerusalem. Elle aceitou, com alvoroço: mas, apenas transpôz a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu leito—onde jaziam espalhadas algumas das Reliquias que eu desencaixotára essa manhã.

—O cavalheiro aprecia? indaguei, desenrolando uma vista do monte
Olivete, e pensando em lhe offertar um rosario.

Elle revirava em silencio, nas mãos gordas e de unhas roidas, um frasco d'agua do Jordão. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas na vastissima fronte:

—Tem attestado?

Estendi-lhe a certidão do frade Franciscano, garantindo como authentica e sem mistura a agua do rio baptismal. Elle saboreou o venerando papel. E enthusiasmado:

—Dou quinze tostões pelo frasquinho!

Foi, no meu intellecto de Bacharel, como se uma janella se abrisse e por ella entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu clarão forte, a natureza real d'essas medalhas, bentinhos, aguas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu considerára até então um lixo ecclesiastico esquecido pela vassoura da Philosophia! As Reliquias eram valores! Tinham a qualidade omnipotente de valores! Dava-se um caco de barro—e recebia-se uma rodella d'ouro!… E, illuminado, comecei insensivelmente a sorrir, com as mãos encostadas á mesa como a um balcão de armazem:

—Quinze tostões por agua pura do Jordão! Boa! Em pouca conta tem v. s.^a o nosso S. João Baptista… Quinze tostões! Chega a ser impiedade!… V. s.^a imagina que a agua do Jordão é como agua do Arsenal? Ora essa!… Tres mil reis recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manhã, ahi, ao pé d'essa cama…