Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graça, cartas com listas e preços de Reliquias. Mandei propostas d'ossos de Martyres a egrejas de provincia. Paguei copinhos d'aguardente a sacristães para que elles segredassem a velhas com achaques—«P'ra coisas de Santidade não ha como o snr. dr. Raposo, que vem fresquinho de Jerusalem!…» E bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a agua do Jordão, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um coração em chammas: vendi d'esta agua para baptisados, para comidas, para banhos: e durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e limpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua nascente n'um quarto da Pomba d'Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poeticas: lancei no commercio com efficacia «o pedacinho da bilha com que Nossa Senhora ia á fonte»: fui eu que acreditei na piedade nacional «uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Familia.» Agora quando o Lino de chinelos batia á porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do Presepio alternavam com as pilhas de taboinhas de S. José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:

—Foi-se… Esgotadinho!… Só para a semana… Vem-me ahi um caixotinho da Terra Santa…

As veias frontaes do capacissimo homem inchavam n'uma indignação de intermediario espoliado.

Todas as minhas Reliquias eram acolhidas com o mais forte fervor—porque provinham «do Raposo, fresquinho de Jerusalem.» Os outros Reliquistas não tinham esta esplendida garantia d'uma jornada á Terra Santa. Só eu, Raposo, percorrêra esse vastissimo deposito de santidade. Só eu de resto sabia lançar na folha sebacea de papel que authenticava a reliquia—a firma floreada do snr. Patriarcha de Jerusalem.

Mas bem cedo reconheci que esta profusão de Reliquilharia saturára a devoção do meu paiz! Atochado, empanturrado de Reliquias, este catholico Portugal já não tinha capacidade—nem para receber um d'esses raminhos seccos de flôres de Nazareth, que eu cedia a cinco tostões!

Inquieto, baixei melancolicamente os preços. Prodigalisei, no Diario de Noticias, annuncios tentadores—«Preciosidades da Terra Santa, em conta, na tabacaria Rego, se diz…» Muitas manhãs, com um casacão ecclesiatico e um cache-nez de sêda disfarçando a minha barba, assaltei á porta das egrejas velhas beatas: offerecia pedaços da tunica da Virgem Maria, cordeis das sandalias de S. Pedro: e rosnava com ancia, roçando-me pelos manteletes e pelas toucas: «Baratinhos, minha senhora, baratinhos… Excellentes para catarrhos!…»

Já devia uma carregada conta na Pomba d'Ouro; descia as escadas sorrateiramente, para não encontrar o patrão; chamava com sabujice ao gallego—«meu André, meu catitinha…»

E punha toda a minha esperança n'um renovamento da Fé! A menor noticia de festa de egreja me regosijava como um acrescimo de devoção no povo. Odiava ferozmente os republicanos e os philosophos que abalam o Catholicismo—e portanto diminuem o valor das reliquias que elle instituiu. Escrevi artigos para a Nação, em que bradava: «Se vos não apegaes aos ossos dos Martyres, como quereis que prospere este paiz?» No café do Montanha dava murros sobre as mesas: «É necessario Religião, caramba! Sem Religião nem o bifezinho sabe!» Em casa da Benta Bexigosa ameaçava as raparigas, se ellas não usassem os seus bentinhos e os seus escapularios, de não voltar alli, de ir a casa da D. Adelaide!… A minha inquietação pelo «pão de cada dia» foi mesmo tão aspera que de novo solicitei a intervenção do Lino—homem de vastas relações ecclesiasticas, parente de capellães de convento. Outra vez lhe mostrei o meu leito juncado de reliquias. Outra vez lhe disse, esfregando as mãos: «Vamos a mais negocio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco, chegadinho de Sião!»

Mas, do digno homem da Camara Patriarcal, só colhi recriminações acerbas…

—Essa léria não péga, senhor! gritou elle, com as veias a estalar de cólera na fronte esbrazeada. Foi v. s.^a que estragou o commercio!… Está o mercado abarrotado, já não ha maneira de vender nem um cueirinho do menino Jesus, uma reliquia que se vendia tão bem! O seu negocio com as ferraduras é perfeitamente indecente… Perfeitamente indecente! É o que me dizia n'outro dia um capellão, primo meu: «São ferraduras de mais para um paiz tão pequeno!…» Quatorze ferraduras, senhor! É abusar! Sabe v. s.^a quantos prégos, dos que pregaram Christo na cruz, v. s.^a tem impingido, todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!… Não lhe digo mais nada… Setenta e cinco!