E sahiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.
Venturosamente, n'essa noite, encontrei o Rinchão em casa da Benta Bexigosa, e recebi d'elle uma consideravel encommenda de reliquias. O Rinchão ia desposar uma menina Nogueira, filha da snr.^a Nogueira, rica beata de Beja e rica proprietaria de porcos: e elle «queria dar um presente catita á carola da velha, tudo coisinhas da Cartilha e do Santo Sepulchro.» Arranjei-lhe um lindo cofre de reliquias (ahi colloquei o meu septuagesimo sexto prégo) ornado das minhas graciosas flôres seccas de Galilêa. Com a generosa pecunia que me deu o Rinchão paguei á Pomba d'Ouro; e tomei prudentemente um quarto na casa d'hospedes do Pitta, á travessa da Palha.
Assim, diminuia a minha prosperidade. O meu quarto agora era nos altos, no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona vetusta cujo miôlo de estopa fetida rompia entre a chita esgaçada. Como unico ornato pendia sobre a commoda, n'um caixilho enfeitado de borlas, uma lithographia de Christo crucificado, a côres; nuvens negras de tormenta rolavam-lhe aos pés; e os seus olhos claros, arregalados, seguiam e miravam todos os meus actos, os mais intimos, mesmo o delicado aparar dos callos.
Havia uma semana que, assim installado, farejava Lisboa á busca do pão incerto, com botas a que se começava a romper a sola, quando uma manhã o André da Pomba d'Ouro me trouxe uma carta que lá fôra deixada na vespera, com a marca «urgente». O papel tinha tarja preta: o sinete era de lacre negro. Abri, tremendo. E vi a assignatura do Justino.
«Meu querido amigo. É meu penoso dever, que cumpro com lagrimas, participar-lhe que sua respeitavel tia e minha senhora inesperadamente succumbiu…»
Caramba! A velha rebentára!
Anciosamente saltei através das linhas tropeçando sobre os detalhes—«congestão dos pulmões… Sacramentos recebidos… Todos a chorar… O nosso Negrão!…» E empallidecendo, n'um suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha:—«do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho Theodorico o oculo que se acha pendurado na sala de jantar…»
Desherdado!
Agarrei o chapéo, corri aos encontrões pelas ruas até ao cartorio do
Justino, a S. Paulo. Achei-o á banca, com uma gravata de lucto e a penna
atraz da orelha, comendo fatias de vitella sobre um velho Diario de
Noticias.
—Com que, o oculo…?—balbuciei, esfalfado, arrimado á esquina d'uma estante.