Não houvera jámais zombaria igual da Sorte! A uma tia beata, que odiava o amor como coisa suja e só esperava, para me deixar predios e pratas, que eu, desdenhando saias, lhe rebuscasse em Jerusalem uma reliquia—trazia a camisa de dormir d'uma luveira! E n'um impulso de caridade, destinado a captivar o céo, atirava como pingue esmola a uma pobre em farrapos, com o filho faminto chorando ao collo—um galho cheio d'espinhos!… Oh Deus, dize-me tu! Dize-me tu, oh Demonio! como se fez, como se fez esta troca de embrulhos—que é a tragedia da minha vida?

Elles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro!… O da camisa jazia no fundo escuro do guarda-fato; o da reliquia campeava sobre a commoda, glorioso, entre dois castiçaes. E ninguem lhes tocára: nem o jocundo Potte; nem o erudito Topsius; nem eu! Ninguém com mãos humanas, mãos mortaes, ousára mover os dois embrulhos. Quem os movera então? Só alguem, com mãos invisiveis!

Sim, havia alguem, incorporeo, todo poderoso—que por odio trocára miraculosamente os espinhos em rendas, para que a titi me desherdasse e eu fosse precipitado para sempre nas Profundas Sociaes!

E quando assim esbravejava, esguedelhado—encontrei frigidamente cravados em mim e mais abertos, como gozando a derrota da minha vida, os olhos claros do Christo crucificado, dentro do seu caixilho com borlas…

—Foste tu! gritei, de repente illuminado e comprehendendo o prodigio.
Foste tu! Foste tu!

E, com os punhos fechados para elle, desafoguei fartamente os queixumes, os aggravos do meu coração:

—Sim, foste tu, que transformaste ante os olhos devotos da titi a corôa de dôr da tua Lenda—na camisa suja da Mary!… E porque? Que te fiz eu? Deus ingrato e variavel! Onde, quando, gozaste tu devoção mais perfeita? Não acudia eu todos os domingos, vestido de preto, a ouvir as missas melhores que te offerta Lisboa? Não me atochava eu todas as sextas-feiras, para te agradar, de bacalhau e de azeite? Não gastava eu dias, no oratorio da titi, com os joelhos doridos, rosnando os terços da tua predilecção? Em que cartilhas houve rezas que eu não decorasse para ti? Em que jardins desabrocharam flôres com que eu não enfeitasse os teus altares?

E arrebatado, arrepiando os cabellos, repuxando as barbas, eu clamava ainda, tão perto da imagem que as baforadas da minha cólera lhe embaciavam o vidro:

—Olha bem para mim!… Não te recordas de ter visto este rosto, estes pêllos, ha seculos, n'um atrio de marmore, sob um velario, onde julgava um Pretor de Roma? Talvez te não lembres! Tanto dista d'um Deus victorioso sobre o seu andor a um Rabbi de provincia amarrado com cordas!… Pois bem! N'esse dia de Nizam, em que não tinhas ainda confortaveis lugares no céo e na bemaventurança a distribuir aos teus fieis; n'esse dia, em que ainda te não tornáras para ninguem fonte de riqueza e esteio de poder; n'esse dia, em que a titi, e todos os que hoje se prostram a teus pés, te teriam apupado como os vendilhões do Templo, os Phariseus e a populaça d'Acra; n'esse dia, em que os Soldados que hoje te escoltam com charangas, os Magistrados que hoje encarceram quem te desacate ou te renegue, os Proprietarios que hoje te prodigalisam ouro e festas d'egreja—se teriam juntado com as suas armas e os seus codigos e as suas bolsas, para obterem a tua morte como revolucionario, inimigo da Ordem, terror da Propriedade: n'esse dia, em que tu eras apenas uma Intelligencia creadora e uma Bondade activa, e portanto considerado pelos homens sérios como um perigo social—houve em Jerusalem um coração que espontaneamente, sem engodo no céo, nem terror do inferno, estremeceu por ti. Foi o meu!… E agora persegues-me. Porque?…

Subitamente, oh maravilha! do tosco caixilho com borlas irradiaram tremulos raios, côr de neve e côr d'ouro. O vidro abriu-se ao meio com o fragor faiscante de uma porta do céo. E de dentro o Christo no seu madeiro, sem despregar os braços, deslisou para mim serenamente, crescendo até ao estuque do tecto, mais bello em magestade e brilho que o sol ao sahir dos montes.