Com um berro cahi sobre os joelhos; bati a fronte apavorada no soalho. E então senti esparsamente pelo quarto, com um rumor manso de brisa entre jasmins, uma Voz repousada e suave:

—Quando tu ias ao alto da Graça beijar no pé uma imagem—era para contar servilmente á titi a piedade com que deras o beijo: porque jámais houve oração nos teus labios, humildade no teu olhar—que não fosse para que a titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te prostravas era o dinheiro de G. Godinho; e o céo para que teus braços trementes se erguiam—o testamento da titi… Para lograres n'elle o lugar melhor fingiste-te devoto sendo incredulo; casto sendo devasso; caridoso sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho tendo só a rapacidade de herdeiro… Tu foste illimitadamente o Hypocrita! Tinhas duas existencias: uma ostentada diante dos olhos da titi, toda de rosarios, de jejuns, de novenas; e longe da titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adelia e da Benta… Mentiste sempre:—e só eras verdadeiro para o céo, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e á Virgem que rebentassem depressa a titi. Depois resumiste esse laborioso dolo d'uma vida inteira n'um embrulho—onde accommodáras um galho, tão falso como o teu coração; e com elle contavas empolgar definitivamente as pratas e predios de D. Patrocinio! Mas n'outro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusavel evidencia do teu fingimento… Ora justiceiramente aconteceu que o embrulho que offertaste á titi e que a titi abriu—foi aquelle que lhe revelava a tua perversidade! E isto prova-te, Theodorico, a inutilidade da hypocrisia.

Eu gemia sobre as táboas. A Voz susurrou, mais larga, como o vento da tarde entre as ramas:

—Eu não sei quem fez essa troca dos teus embrulhos, picaresca e terrivel; talvez ninguem; talvez tu mesmo! Os teus tedios de desherdado não provêm d'essa mudança de espinhos em rendas:—mas de vivêres duas vidas, uma verdadeira e de iniquidade, outra fingida e de santidade. Desde que contradictoriamente eras do lado direito o devoto Raposo e do lado esquerdo o obsceno Raposo—não poderias seguir muito tempo, junto da titi, mostrando só o lado, vestido de casimiras de domingo, onde resplandecia a virtude; um dia fatalmente chegaria em que ella, espantada, visse o lado despido e natural onde negrejavam as maculas do vicio… E ahi está porque eu alludo, Theodorico, á inutilidade da hypocrisia.

De rojo eu estendia abjectamente os labios para os pés do Christo, transparentes, suspensos no ar, com prégos que despediam tremulas radiancias de joia. E a Voz passou sobre mim, cheia e rumorosa, como a rajada que curva os cyprestes:

—Tu dizes que eu te persigo! Não. O oculo, isso a que chamas Profundas Sociaes, são obra das tuas mãos—não obra minha. Eu não construo os episodios da tua vida; assisto a elles e julgo-os placidamente… Sem que eu me mova, nem intervenha influencia sobrenatural—tu pódes ainda descer a miserias mais torvas, ou elevar-te aos rendosos paraisos da terra e ser director d'um Banco… Isso depende meramente de ti, e do teu esforço d'homem… Escuta ainda! Perguntavas-me, ha pouco, se eu me não lembrava do teu rosto… Eu pergunto-te agora se não te lembras da minha voz… Eu não sou Jesus de Nazareth, nem outro Deus creado pelos homens… Sou anterior aos deuses transitorios: elles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem: e eternamente permaneço em torno d'elles e superior a elles, concebendo-os e desfazendo-os, no perpetuo esforço de realisar fóra de mim o Deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me a Consciencia; sou n'este instante a tua propria Consciencia reflectida fóra de ti, no ar e na luz, e tomando ante teus olhos a fórma familiar, sob a qual, tu mal educado e pouco philosophico, estás habituado a comprehender-me… Mas basta que te ergas e me fites, para que esta imagem resplandecente de todo se desvaneça.

E ainda eu não levantára os olhos—já tudo desapparecera!

Então, transportado como perante uma evidencia do Sobrenatural, atirei as mãos ao céo e bradei:

—Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te encarnaste e padeceste por nós…

Mas emmudeci… Aquella ineffavel Voz resoava ainda em minha alma, mostrando-me a inutilidade da hypocrisia. Consultei a minha consciencia, que reentrára dentro de mim—e bem certo de não acreditar que Jesus fosse filho de Deus e d'uma mulher casada de Galilêa (como Hercules era filho de Jupiter e d'uma mulher casada da Argolida)—cuspi dos meus labios, tornados para sempre verdadeiros, o resto inutil da oração.