Quando eu entrava abrazado—encontrava-a por vestir, por pentear, molle, estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mãosinha desamoravel, bocejava, colhia preguiçosamente a viola: e emquanto eu, a um canto, chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidraçada da alcova que dava para o céo—a deshumana Adelia, estirada no sofá, de chinelas cahidas, beliscava os bordões, murmurando, por entre longos ais, cantigas de estranha saudade…
N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá vinha logo a dura, a regelada palavra:
—Está quieto, carraça!
E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: «não posso, estou com azia.» Dizia-me: «adeus, tenho a dôr na ilharga.»
Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna—espoliado, miserrimo, chorando na escuridão da minha alma pelos tempos ineffaveis em que ella me chamava morcão!
Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a escada de luz;—e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola. Ella empallideceu, elle encolheu—quando eu surgi, grande e barbudo, com a minha bengala na mão. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturbação, vera e limpida, apresentou-me «seu sobrinho Adelino.» Era filho da mana Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irmão do Theodoriquinho… Tirando o chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:
—Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mamã, seu mano, bons?
N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me morcão, restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como a d'um noivado. O verão ardia; e começára na Conceição Velha a novena de S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas, mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fustão branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado, cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais idyllico, mais dôce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella, contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar em cordas… Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito libras.
Oito libras!… Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em Torres, o prestante Rinchão estava em Paris… E pensava já no padre Pinheiro (cujas dôres de rins eu lamentava sempre com affecto) quando avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos—o José Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S. José, o virtuosissimo tabellião da titi!…
Gritei logo: «boas noites, Justininho!» E regressei ao Campo de Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodellas d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo, contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico, miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes, ao pé do largo dos Caldas.