—É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho… Eu é que o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir… Faço-lhe companhia, é o que posso; leio-lhe orações, e Exercicios da vida christã. Hontem á noite vinha eu de lá… E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por aquellas ruas, tão tarde… Jesus, que ruas que indecencia, que immoralidade!… Aquelles beccos d'escadinhas, hein?… Eu hontem bem percebi que você ia horrorisado: eu tambem… De sorte que esta manhã estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: «entende-te com o Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o rapaz…» Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho, Justino, por ordem d'Elle.

O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos tristes nos dedos;—depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.

Fugaz foi porém a minha gloria!

D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada—o criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a Marianna, esperava por mim á esquina… Santo Deus! A Marianna era a criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada ficára soffrendo da sua abominavel dôr na sua branca ilharga. Pensei mesmo em começar o Rosario das dezoito apparições de Nossa Senhora de Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de touros tresmalhados…

—Ha novidade, Marianna?

Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os olhos vermelhos, destraçando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas, sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino não era sobrinho: era o querido, o chulo. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia dependurava-se-lhe do pescoço, n'um delirio; e chamavam-me então o carraça, o carola, o bode, vituperios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de verão; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta, e de guitarra… A Adelia adorava-o com pieguice e com furor: cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!… Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois da uma hora, bater á portinha da Adelia!

Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha do canto escuro do pateo—se das immundicies que borbulhavam da bocca da Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a desfallecer:

—Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus…

Cheguei a casa tão sombrio, tão murcho, que a titi perguntou-me, com um risinho, se eu «malhára abaixo da egoa.»

—Da egoa?… Não, titi, credo! Estive na igreja da Graça…