Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,—mas hesitei com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel… Meu Deus! Talvez a Marianna, por vingança, calumniasse a minha Adelia! Ainda na vespera ella me chamára riquinho, com tanto ardor! Não seria mais sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu beijinho na orelha?

Mas então á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr. Adelino, e que o snr. Adelino também dizia ai! ai! como eu—assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros, alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o seu fragil, ingrato peito.

Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ella surgiu em camisa, com os seus bellos cabellos revoltos:

—Quem é o bruto?

—Sou eu, abre.

Reconheceu-me—a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escuridão, fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem occupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e murmurava: «ai, que eu rebento!»

Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.

—Não posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!

—Abre! gritei erguendo os braços desesperados. Abre ou nunca mais cá volto!…

—Pois á fava, e recados á tia.