—Fica-te, bebeda!

Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito teso, muito digno. Mas á esquina aluí de dôr, para cima d'um portal, a soluçar, escoado em pranto, delido.

Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias d'estio… Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente destinados ao Almanach da Immaculada Conceição para 1878, encerrava-me no quarto, toda a manhã, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía, entre suspiros, recordações da Adelia; ou diante do espelho contemplava o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo… Depois sentia um ruido de vidraça—e o seu perfido, o seu affrontoso brado «á fava!» Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os murros que não podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.

Á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias, esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e gostoso sabor dos seus beijos.

Á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva côr de carne, quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a corôa d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos, dois esplendidos seios de mulher, com um botãosinho de rosa na ponta;—e era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa, soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os braços abertos para mim!

Eu não via n'isto uma tentação do Demonio—antes me parecia uma graça do Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem cruel da capa á hespanhola. Puz mais flôres sobre a commoda diante de Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu coração. Por traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados, ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:

—Ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra vez de mim!

Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos—o amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, tão benevolo para a juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Petição por certa necessidade minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu, espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida senhora, de joelhos, de contas na mão, em supplicas aos Patriarchas castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na orelha.

Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára tão valiosas preces. Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.

—Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria fallar á Adeliasinha.