—Sempre é mais de cavalheiro, affirmou o dr. Margaride.
Padre Pinheiro quiz saber, solicitamente, se eu ia prevenido com remedios para o caso d'um contratempo intestinal n'esses descampados biblicos…
—Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista… Até linhaça, até arnica!…
O pachorrento relogio do corredor começou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pescoço no seu lenço de sêda. Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leaes amigos que «lembrançasinha» desejavam d'essas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d'agua do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janella um pacote de tabaco turco) diante da titi só appetecia um raminho de oliveira, do monte Olivete. O dr. Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus Christo, para encaxilhar…
Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas imcumbencias—voltei-me para a titi, risonho, carinhoso, humilde…
—Cá por mim, disse ella do meio do sofá como d'um altar, tesa nos seus setins de domingo, o que desejo é que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a corôa… Além d'isso, tambem estimo que tenhas saude.
Eu ia depôr na sua mão, brilhante de anneis, um beijo gratissimo. Ella deteve-me—mais aprumada e secca:
—Até aqui tens sido apropositado, não tens faltado aos preceitos, nem te tens dado a relaxações… Por isso te vaes regalar de vêr as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jordãosinho… Mas se eu soubesse que n'esta passeata tinhas tido maus pensamentos, e praticado uma relaxação, ou andado atraz de saias, fica certo que, apesar de ser a unica pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalem, e gozar indulgencias, havias de ir para a rua, sem uma côdea, como um cão!
Curvei a cabeça, apavorado. E a titi, depois de roçar o lenço de rendas pelos beiços sumidos, proseguiu com mais authoridade, e uma emoção crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar d'um peito humano:
—E agora quero dizer-te para teu governo uma só coisa!…