Entrei, commovido. Por traz do balcão envernizado, junto a um vaso de rosas e magnolias, ella estava lendo o seu Times, com um gato branco no collo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azues-claros, d'um azul que só ha nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabellos, crespos, frisadinhos como uma carapinha d'ouro, tão dôces e finos que appetecia ficar eternamente e devotamente a mexer-lhes com os dedos tremulos; e era irresistivel o profano nimbo luminoso que elles punham em torno da sua face gordinha, d'uma brancura de leite onde se desfez carmezim, toda tenra e succulenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me se eu queria pellica ou Suecia.

Eu murmurei, roçando-me sôfregamente pelo balcão:

—Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.

Ella escolheu entre o ramo um timido botão de rosa, e deu-m'o na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade d'esta caricia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a face—e chamou-me baixo «mausinho!» Esqueci S. José e a sua jaculatoria—e as nossas mãos, um momento unidas para ella me calçar a luva clara, não se desenlaçaram mais, n'essas semanas que passei, na cidade dos Lagidas, em festivas delicias musulmanas!

Ella era d'York, esse heroico condado da velha Inglaterra, onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus jardins reaes. Por causa da sua meiguice e do seu riso d'ouro quando lhe fazia cocegas, eu puzera-lhe o nome galante e cacarejante de Maricoquinhas. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe «a nossa symbolica Cleopatra.» Ella amava a minha barba negra e potente: e, só para não me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a vêr o Cairo, o Nilo, e a eterna Esphinge, deitada á porta do deserto, sorrindo da Humanidade vã…

Vestido de branco como um lirio, eu gozava manhãs ineffaveis, encostado ao balcão da Mary, amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ella era silenciosa: mas o seu simples sorrir com os braços cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o Times, saturava o meu coração de luminosa alegria. Nem precisava chamar-me «seu portuguezinho valente, seu bibichinho.» Bastava que o seu peito arfasse:—só para vêr aquella dôce onda languida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos, eu teria vindo de tão longe a Alexandria, iria mais longe, a pé, sem repouso, até onde as aguas do Nilo são brancas!

De tarde, na caleche de chita com o nosso doutissimo Topsius, davamos lentos, amorosos passeios á beira do canal Mamoudieh. Sob as frondosas arvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnolias, e outros calidos perfumes que não conhecia. Por vezes uma leve flôr rôxa ou branca cahia-me sobre o regaço: com um suspiro eu roçava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ella, sensivel, estremecia. Na agua jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo, sagrado e bemfazejo, ancorando junto ás ruinas dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde cahia. Vagarosamente rolavamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarello—como feitas em relevo de bronze sobre uma lamina d'ouro.

Maricocas jantava sempre comnosco no Hotel das Pyramides; e diante d'ella Topsius desabrochava todo em flôres d'erudição amavel. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no canal que levava a Canopia: ambas as margens resplandeciam de palacios e de jardins; as barcas, com toldos de sêda, vogavam ao som dos alaúdes; os sacerdotes d'Osiris, cobertos de pelles de leopardo, dançavam sob os laranjaes; e nos terraços abrindo os véos, as damas d'Alexandria bebiam á Venus Assyria, pelo calice da flôr do lotus. Uma voluptuosidade esparsa amollecia as almas. Os philosophos mesmo eram frascarios.

—E, dizia Topsius requebrando o olho, em toda a Alexandria só havia uma dama honesta que commentava Homero e era tia de Seneca. Só uma!

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver n'essa Alexandria, e navegar para Canopia, n'uma barca toldada de sêda!