—Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ella é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: «Eu sou Jehovah, o eterno, o primeiro e o ultimo, o que não transmitte a outros nem o seu nome, nem a sua gloria: antes de mim não houve Deus algum, não existe Deus algum ao meu lado, não haverá Deus algum depois de mim…» Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: «Se pois entre vós apparecer um propheta, um visionario que faça milagres e queira introdizir outro Deus e chame os simples ao culto d'esse Deus,—esse propheta e visionario morrerá!» Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazareth proclamou-se Deus em Galilêa, nas synagogas, nas ruas de Jerusalem, nos pateos santos do Templo… O Rabbi deve morrer.

Mas o formoso Manassés, cujo languido olhar entenebrecia como um céo onde vai trovejar, interpoz-se entre o Doutor da Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repelliu a letra cruel da Doutrina:

—Não, não! Que importa que a lampada d'um sepulchro diga que é o sol? Que importa que um homem abra os braços e grite que é um Deus? As nossas leis são suaves: por tão pouco não se vai buscar o carrasco ao seu covil a Gareb…

Eu, caridosso, ia louvar Manassés. Mas já elle bradava com violencia e fervor:

—Todavia esse Rabbi de Galilêa deve decerto morrer, porque é um mau cidadão e um mau judeu! Não o ouvimos nós aconselhar que se pague o tributo a Cesar? O Rabbi estende a mão a Roma, o romano não é o seu inimigo. Ha tres annos que préga, e ninguem jámais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar o Estrangeiro. Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, nescio e verboso, declara que traz só o pão da verdade! Quando ha um pretor romano em Jerusalem, quando são lanças romanas que velam ás portas do nosso Deus, a que vem esse visionario fallar do pão do céo e do vinho da verdade? A unica verdade util é que não deve haver romanos em Jerusalem!…

Osanias, inquieto, olhou a janella cheia de luz, por onde as ameaças de Manassés se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria friamente. E o discipulo ardente de Judas de Gamala clamava, arrebatado na sua paixão:

—Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperança do reino do céo é fazer-lhes esquecer o dever forte para com o reino da terra, para esta terra d'Israel que está em ferros, e chora e não quer ser consolada! O Rabbi é traidor á patria! O Rabbi deve morrer!

Tremulo, agarrára a espada: e o seu olhar alargava-se, com uma fulguração de revolta, como chamando avidamente os combates e a gloria dos supplicios.

Então Osanias ergueu-se apoiado a um bastão que rematava n'uma pinha d'ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuvear a sua velhice leviana. E começou a dizer, de manso e tristemente, como quem através do Enthusiasmo e da Doutrina aponta o mandado inilludivel da Necessidade:

—Decerto, decerto, pouco importa que um visionario se diga Messias e filho de Deus, ameace destruir a Lei e destruir o Templo. O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da sua eternidade… Mas, oh Manassés, as nossas leis são suaves; e não creio que se deva ir acordar o carrasco a Gareb, porque um Rabbi de Galilêa, que se lembra dos filhos de Judas de Gamala pregados na cruz, aconselha prudencia e malicia nas relações com o romano! Ó Manassés, robustas são as tuas mãos: mas pódes tu com ellas desviar a corrente do Jordão da terra de Canaan para a terra da Trakaunitida? Não. Nem pódes tambem impedir que as legiões de Cesar, que cobriram as cidades da Grecia, venham cobrir o paiz de Judá! Sabio e forte era Judas Macchabeo, e fez amizade com Roma… Porque Roma é sobre a terra como um grande vento da natureza; quando elle vem, o insensato offerece-lhe o peito e é derrubado; mas o homem prudente recolhe á sua morada e está quieto. Indomavel era a Galacia; Filippe e Perseu tinham exercitos na planicie; Antiochus o Grande commandava cento e vinte elephantes e carros de guerra innumeraveis… Roma passou; d'elles que resta? Escravos, pagando tributos…