Curvára-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois, fixando sobre nós os olhos miudos que dardejavam um brilho inexoravel e frio, proseguiu, sempre de manso e subtil:

—Mas em verdade vos digo, que esse Rabbi de Galilêa deve morrer! Porque é o dever do homem que tem bens na terra e searas apagar depressa com a sandalia, sobre as lages da eira, a fagulha que ameaça inflammar-lhe a mêda… Com o romano em Jerusalem, todo aquelle que venha e se proclame Messias, como o de Galilêa, é nocivo e perigoso para Israel. O romano não comprehende o Reino do céo que elle promette: mas vê que essas prédicas, essas exaltações divinas agitam sombriamente o povo dentro dos porticos do Templo… E então diz: «na verdade este Templo, com o seu ouro, as suas multidões, e tanto zelo, é um perigo para a auctoridade de Cesar na Judêa…» E logo, lentamente, annulla a força do Templo diminuindo a riqueza, os privilegios do seu sacerdocio. Já para nossa humilhação, as vestes pontificaes são guardadas no erario da Torre Antonia: ámanhã será o Candelabro d'ouro! Já o Pretor usou, para nos empobrecer, o dinheiro do Corban! Ámanhã os dizimos da colheita, o dos gados, o dinheiro da offrenda, o óbolo das trombetas, os tributos rituaes, todos os haveres do sacerdocio, até as viandas dos sacrificios, nada será nosso, tudo será do romano! E só nos ficará o bordão para irmos mendigar nas estradas de Samaria, á espera dos mercadores ricos da Decapola… Em verdade vos digo, se quizermos conservar as honras e os thesouros, que são nossos pela antiga Lei, e que fazem o esplendor d'Israel, devemos mostrar ao romano, que nos vigia, um Templo quieto, policiado, submisso, contente, sem fervores e sem Messias!… O Rabbi deve morrer!

Assim diante de mim fallou Osanias, filho de Beothos, e membro do
Sanhedrin.

Então o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverencia as mãos sobre o peito, saudou tres vezes aquelles homens facundos. Gad, immovel, orava. No azul da janella uma abelha côr d'ouro zumbia em torno da flôr de madresilva. E Topsius dizia com pompa:

—Homens que me haveis acolhido, a verdade abunda nos vossos espiritos como a uva abunda nas videiras! Vós sois tres torres que guardaes Israel entre as nações: uma defende a unidade da Religião, outra mantem o enthusiasmo da Patria: e a terceira, que és tu, venerando filho de Beothos, cauto e ondeante como a serpente que amava Salomão, protege uma cousa mais preciosa que é a Ordem!… Vós sois tres torres: e contra cada uma o Rabbi de Galilêa ergue o braço e lança a primeira pedrada! Mas vós guardaes Israel e o seu Deus e os seus bens, e não vos deveis deixar derrocar!… Em verdade, agora o reconheço, Jesus e o Judaismo nunca poderiam viver juntos.

E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara fragil, disse, mostrando os dentes brancos:

—Por isso o crucificamos!

Foi como uma faca acerada que, lampejando e silvando, se viesse cravar no meu peito! Arrebatei, suffocado, a manga do douto historiador:

—Topsius! Thopsius! quem é esse Rabbi que prégava em Galilêa, e faz milagres e vai ser crucificado?

O sabio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se eu lhe perguntasse qual era o astro que d'além dos montes traz a luz da manhã. Depois, seccamente: