—Rabbi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazareth em Galilêa, a quem alguns chamam Jesus e outros tambem chamam o Christo.

—O nosso! gritei, vacillando, como um homem atordoado.

E os meus joelhos catholicos quasi bateram as lages, n'um impulso de ficar alli cahido, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente e para sempre. Mas logo como uma labareda chammejou por todo o meu sêr o desejo de correr ao seu encontro e pôr os meus olhos mortaes no corpo do meu Senhor, no seu corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se vestem, coberto com o pó que levantam os caminhos humanos!… E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha n'um aspero vento, tremia a minha alma n'um terror sombrio:—o terror do servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado com jejuns e terços para affrontar a face fulgurante do meu Deus? Não! Oh mesquinha e amarga deficiencia da minha devoção! Eu não beijára jámais, com sufficiente amor, o seu pé dorido e rôxo na sua igreja da Graça! Ai de mim! Quantos domingos, n'esses tempos carnaes em que a Adelia, sol da minha vida, me esperava na travessa dos Caldas, fumando e em camisa—não maldissera eu a lentidão das Missas e a monotonia dos Septenarios! E sendo assim do craneo á sola dos pés uma crosta de peccado, como poderia meu corpo não tombar, já reprobo, já tisnado, quando os dois globos dos olhos do Senhor, como duas metades do céo, se voltassem vagarosamente para mim?

Mas vêr Jesus! Vêr como eram os seus cabellos, que pregas fazia a sua tunica, e o que acontecia na terra quando os seus labios se abriam!… Para além d'esses eirados onde as mulheres atiravam grão ás pombas; n'uma d'essas ruas d'onde me chegava claro e cantado o pregão dos vendedores de pães azymos—ia passando talvez n'esse temeroso instante, entre barbudos, graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda amarrada nas mãos. A lenta aragem que balançava na janella o ramo de madresilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de roçar a fronte do meu Deus, já ensanguentada d'espinhos! Era só empurrar aquella porta de cedro, atravessar o pateo onde gemia a mó do moinho domestico,—e logo, na rua, eu poderia vêr presente e corporeo o meu Senhor Jesus tão realmente e tão bem como o viram S. João e S. Matheus. Seguiria a sua sacra sombra no muro branco—onde cahiria tambem a minha sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem—beijaria a pégada ainda quente dos seus pés! E abafando com ambas as mãos o barulho do meu coração,—eu poderia surprehender, sahido da sua bocca ineffavel, um ai, um soluço, um queixume, uma promessa! Eu saberia então uma palavra nova do Christo, não escripta no Evangelho;—e só eu teria o direito pontifical de a repetir ás multidões prostradas. A minha auctoridade surgia, na Igreja, como a d'um Testamento novissimo. Eu era uma testemunha inedita da Paixão. Tornava-me S. Theodorico Evangelista!

Então, com uma desesperada anciedade que espantou aquelles Orientaes de maneiras mesuradas, eu gritei:

—Onde o posso vêr? Onde está Jesus de Nazareth, meu Senhor?

N'esse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandalias, veio cahir de bruços nas lages, diante de Gamaliel; beijava-lhe as franjas da tunica, as suas costellas magras arquejavam; por fim murmurou, exhausto:

—Amo, o Rabbi está no Pretorio!

Gad emergiu da sua oração com um salto de fera, apertou em tôrno dos rins a corda de nós, e correu arrebatadamente, com o capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabellos revoltos. Topsius traçára a sua capa branca, com essas pregas de toga latina que lhe davam a solemnidade d'um marmore; e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel á d'Abrahão, bradou-me triumphantemente:

—Ao Pretorio!