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Muito tempo segui Topsius através da antiga Jerusalem, n'uma caminhada offegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos. Passámos junto a um jardim de rosas, do tempo dos Prophetas, esplendido e silencioso, que dois levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatisada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de taboletas em fórma de flôres e d'almofarizes: um toldo de esteiras finas assombreava as portas, o chão estava regado e juncado d'herva dôce e de folhas d'anemonas: e pela sombra preguiçavam moços languidos, de cabellos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas d'anneis, as sêdas roçagantes das tunicas côr de cereja e côr d'ouro. Além d'essa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam: solitaria, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, immovel e como de bronze: e ao fundo, negrejavam na luz as columnatas de granito do velho palacio de Herodes. Ahi era o Pretorio.

Defronte do arco d'entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionarios da Syria—um bando de raparigas, tendo detraz da orelha uma rosa e no regaço coifas d'esparto, apregoavam os pães azymos. Sob um enorme guardasol de pennas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com taboas sobre os joelhos e balanças trocavam a moeda romana. E os vendedores d'agua, com os seus ôdres felpudos, lançavam um grito tremulo. Entrámos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pateo, aberto sob o azul, ladeado de marmore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do Palacio, estendia-se um velario, d'um estofo escarlate franjado d'ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura: dois mastros de pau de sycomoro sustentavam-n'o, rematados por uma flôr de lotus.

Ahi apertava-se um magote de gente—onde se confundiam as tunicas dos Phariseus orladas d'azul, o rude saião d'estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galilêa, e a capa carmezim de grande capuz dos mercadores de Tiberiade; algumas mulheres já fóra do abrigo do velario, alçavam-se na ponta das chinelas amarellas, estendendo por cima do rosto contra o sol, uma dobra do manto ligeiro: e d'aquella multidão sahia um cheiro morno de suor e de myrrha. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres d'uma toga pretexta, e mais immovel que um marmore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha: os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos: uma fita escarlate prendia-lhe os cabellos: e por traz, sobre um pedestal que fazia espaldar á sua cadeira curul, a figura de bronze da Loba Romana abria de travez a guela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquelle magistrado melancolico.

—Um certo Poncius, chamado Pilatus, que foi Prefeito em Batavia.

Lentamente caminhei pelo pateo, procurando, como n'um templo, fazer mais subtil e respeitoso o ruido das minhas solas. Um grave silencio cahia do céo rutilante: só, por vezes, rompia do lado dos jardins, aspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto á balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma columna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lages.

Subitamente, alguem familiar tocou no hombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com elle vinha um velho magnifico, d'uma nobreza de Pontifice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da simarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa d'oleo, cahia-lhe até á faxa que o cingia; e os hombros largos desappareciam sob a esparsa abundancia dos cabellos alvos, sahindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reaes. Uma das mãos, cheia de anneis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pallida, que tinha os olhos mais bellos que estrellas, e semelhava junto ao ancião um lirio á sombra d'um cedro.

—Subi á galeria, disse-nos Manassés. Tereis lá repouso e frescura…

Seguimos o Patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.