Poncius deixára a sala: o Decurião, saudando, cerrou a porta de cedro. Então Rabbi Robam voltou-se, sereno, resplandecente como um justo: e adiantando-se por entre os Phariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da tunica—murmurava com uma grave doçura:

—Antes soffra um só homem do que soffra um povo inteiro!

Limpando as bagas de suor de que a emoção me alagára a testa, cahi, tremulo, sobre um banco. E, através da minha lassidão, confusamente distinguia no Pretorio dois legionarios, de cinturão desapertado, bebendo n'uma grande malga de ferro que um negro ia enchendo com o ôdre suspenso aos hombros; adiante uma mulher bella e forte, sentada ao sol, com os filhos pendurados dos dois peitos nús; mais longe um pegureiro envolto em pelles, rindo e mostrando o braço manchado de sangue. Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que deixára na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha; por fim roçou-me um somno ligeiro… Quando despertei a cadeira curul permanecia vazia—com a almofada de purpura em frente, sobre o marmore, gasta, cavada pelos pés do Pretor; e uma multidão mais densa enchia, n'um longo rumor de arraial, o velho atrio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas d'estamenha, sujas de pó, como se tivessem servido de tapetes sobre as lages d'uma praça. Alguns traziam balanças na mão, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, sordidas e macilentas, atiravam de longe com o braço fremente maldições ao Rabbi. Outros no emtanto, caminhando na ponta das sandalias, apregoavam baixo coisas infimas e ricas, mettidas no seio entre as dobras dos saiões—grãos d'aveia torrada, potes de unguentos, coraes, braceletes de filigrana de Sidon. Interroguei Topsius: e o meu douto amigo, limpando os oculos, explicou-me que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na vespera de Paschoa, erguendo um bastão, reclamára a estreita applicação da Lei que interdiz traficos profanos no Templo, fóra dos porticos de Salomão…

—Outra imprudencia do Rabbi, D. Raposo! murmurou com ironia o fino historiador.

Entretanto, como cahira a sexta hora judaica e findára o trabalho, vinham entrando obreiros das tinturarias visinhas, ennodoados de escarlate ou azul; escribas das synagogas apertando debaixo dos braços os seus tabularios; jardineiros com a fouce a tiracollo, o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha de ferro pendendo da orelha… Tocadores phenicios a um canto afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro: e diante de nós rondavam duas prostitutas gregas de Tiberiade, com perucas amarellas, mostrando a ponta da lingua e sacudindo a roda da tunica d'onde voava um cheiro de mangerona. Os legionarios, com as lanças atravessadas no peito, apertavam uma cercadura de ferro em torno de Jesus: e eu, agora, mal podia distinguir o Rabbi através d'essa multidão susurrante, em que as consoantes asperas de Moab e do deserto se chocavam por sobre a molleza grave da falla chaldaica…

Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um hortelão que offerecia n'um cabaz d'esparto, acamados sobre folhas de parra, figos rachados de Bephtagé. Debilitado pelas emoções, perguntei-lhe, debruçado no parapeito, o preço d'aquelle mimo dos vergeis que os Evangelhos tanto louvam. E o homem, rindo, alargou os braços como se encontrasse o esperado do seu coração:

—Entre mim e ti, ó creatura d'abundancia que vens d'além do mar, que são estes poucos figos? Jehovah manda que os irmãos troquem presentes e bençãos! Estes fructos colhi-os no horto, um a um, á hora em que o dia nasce no Hebron; são succulentos e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hannan!… Mas que valem vãs palavras entre mim e ti se os nossos peitos se entendem? Toma estes figos, os melhores da Syria, e que o Senhor cubra de bens aquella que te creou!

Eu sabia que esta offerta era uma cortezia consagrada, em compras e vendas, desde o tempo dos Patriarchas. Cumpri tambem o ceremonial: declarei que Jehovah, o muito forte, me ordenava que com o dinheiro cunhado pelos Principes eu pagasse os fructos da Terra… Então o hortelão abaixou a cabeça, cedeu ao mandamento divino; e pousando o cesto nas lages, tomando um figo em cada uma das mãos negras e cheias de terra:

—Em verdade, exclamou, Jehovah é o mais forte! Se elle o manda, eu devo pôr um preço a estes fructos da sua bondade, mais dôces que os labios da esposa! Justo é pois, ó homem abundante, que por estes dois que me enchem as palmas, tão perfumados e frescos, tu me dês um bom traphik.

Oh Deus magnifico de Judá! O facundo hebreu reclamava por cada figo um tostão da moeda real da minha patria! Bradei-lhe:—«Irra, ladrão!» Depois, guloso e tentado, offereci-lhe um drachma por todos os figos que coubessem no forro largo d'um turbante. O homem levou as mãos ao seio da tunica, para a despedaçar na immensidade da sua humilhação. E ia invocar Jehovah, Elias, todos os Prophetas seus patronos—quando o sapiente Topsius, enojado, interveio seccamente, mostrando-lhe uma miuda rodella de ferro que tinha por cunho um lirio aberto: