—Na verdade Jehovah é grande! E tu és ruidoso e vazio como o ôdre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu este meah. E se não queres, conheço o caminho dos hortos tão bem como o do Templo, e sei onde as aguas dôces de Enrogel banham os melhores pomares… Vai-te!

O homem logo, trepando anciosamente até ao parapeito de marmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera, carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes brancos, murmurou risonhamente que nós eramos mais beneficos que o orvalho do Carmello!

Saborosa e rara me parecia aquella merenda de figos de Bephtagé, no palacio de Herodes. Mas apenas nos accommodáramos com a fruta no regaço, reparei em baixo n'um velhito magro, que cravava em nós humildemente uns olhos ennevoados, queixosos, cheios de cansaço. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma moeda de prata dos Ptolomeus—quando elle, mergulhando a mão tremula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabelludo, estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que reluzia. Era uma placa oval d'alabastro tendo gravada uma imagem do Templo. E emquanto Topsius doutamente a examinava, o velho foi tirando do seio outras pedras de marmore, d'onyx, de jaspe, com representações do Tabernaculo no deserto, os nomes das tribus entalhados, e figuras confusas em relevo simulando as batalhas dos Machabeus… Depois ficou com os braços cruzados; e no seu pobre rosto escavado pelos cuidados luzia uma anciedade, como se de nós sómente esperasse misericordia e descanso.

Topsius deduziu que elle era um d'esses Guebros, adoradores do fogo e habeis nas artes, que vão descalços até ao Egypto, com fachos accesos, salpicar sobre a Esphinge o sangue d'um gallo negro. Mas o velho negou, horrorisado—e tristemente murmurou a sua historia. Era um pedreiro de Naim, que trabalhára no Templo e nas construcções que Antipas Herodes erguia em Bezetha. O açoite dos intendentes rasgára-lhe a carne; depois a doença levára-lhe a força como a geada sécca a macieira. E agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava pedras raras nos montes—e gravava n'ellas nomes santos, sitios santos, para as vender no Templo aos fieis. Em vespera de Paschoa, porém, viera um Rabbi de Galilêa cheio de cólera que lhe arrancára o seu pão!…

—Aquelle! balbuciou suffocado, sacudindo a mão para o lado de Jesus.

Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustiça e a dôr d'esse
Rabbi, de coração divino, que era o melhor amigo dos pobres?

—Então vendias no Templo? perguntou o terso historiador dos Herodes.

—Sim, suspirou o velho, era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo anno! N'esses dias subia ao Templo, offertava a minha prece ao Senhor, e junto á porta de Suza, diante do Portico do Rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol… Decerto, eu não tinha direito de pôr alli tenda: mas como poderia eu pagar ao Templo o aluguer de um covado de lagedo para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregôam á sombra, debaixo do portico, sobre taboleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença: alguns pagam um siclo d'ouro. Eu não podia com crianças em casa sem pão… Por isso ficava a um canto, fóra do portico, no peor sitio. Alli estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Joppé, que offerecia um oleo para fazer crescer os cabellos, e Osêas, de Ramah, que vendia flautas de barro… Os soldados da Torre Antonia que fazem a ronda passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quasi sempre de guarda pela Paschoa, nos dizia:—«está bem, ficai, comtanto que não apregoeis alto.» Porque todos sabiam que eramos pobres, não podiamos pagar o covado de lage, e tinhamos nas nossas moradas crianças com fome… Na Paschoa e nos Tabernaculos vêm da terra distante peregrinos a Jerusalem; e todos me compravam uma imagem do Templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demonio… Ás vezes, ao fim do dia, tinha feito tres drachmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores do Senhor!…

Eu, d'enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

—Mas eis que ha dias esse Rabbi de Galilêa apparece no Templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquella «era a casa de seu pai, e que nós a polluiamos!…» E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lages os vasos d'oleo d'Eboim, de Joppé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do Templo. Menahem acudiu tambem; até, indignado, disse ao Rabbi:—«És bem duro com os pobres. Que auctoridade tens tu?» E o Rabbi fallou «de seu pai», e reclamou contra nós a lei severa do Templo. Menahem baixou a cabeça… E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babylonia, e com o seu lagedo bem pago, batiam palmas ao Rabbi… Ah! contra esses o Rabbi nada podia dizer: eram ricos, tinham pago!… E agora aqui ando! Minha filha, viuva e doente, não póde trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos: e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêem-me tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o Sabbat, vou á synagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas que sobravam do meu pão juntava-as para aquelles que nem migalhas têm na terra… Que mal fazia eu vendendo? Em que offendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lages do Templo: cada pedra era purificada pelas aguas lustraes… Em verdade Jehovah é grande, e sabe… Mas eu fui expulso pelo Rabbi, sómente porque sou pobre!