Calou-se—e as suas mãos magras, tatuadas de linhas magicas, tremiam, limpando as longas lagrimas que o alagavam.
Bati no peito, desesperado. E a minha angustia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violencia do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente creado, como a chuva benefica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flôr isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem d'ella ficasse uma queixa na terra—paguei a divida de Jesus (assim seu Pai perdôe a minha!) atirando para o saião do velho moedas consideraveis, drachmas, crysos gregos de Philippe, aureos romanos d'Augusto, até uma grossa peça da Cyrenaica que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amnon que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este thesouro um lepta de cobre—que tem em Judêa o valor d'um grão de milho…
O velho pedreiro de Naim empallidecia, suffocado. Depois, com o dinheiro n'uma dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou timida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:
—Pai, que estás nos céos, lembra-te da face d'este homem, que me deu o pão de longos dias!…
E soluçando sumiu-se entre a turba—que agora de todo o atrio rumorosamente affluia, se apinhava em torno aos mastros altos do velario. O escriba apparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabbi e dos guardas do Templo, Sarêas viera perfilar-se encostado ao seu baculo. Depois, entre um brilho d'armas, surgiram as varas brancas dos lictores: e novamente Poncius, pallido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o o Assento Curul.
Um silencio cahiu, tão attento, que se ouviam as bozinas tocando ao longe na Torre Marianna. Sarêas desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabularios: e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um sêllo sob as linhas vermelhas que condemnavam á morte Jesus de Galilêa, meu Senhor… Depois Poncius Pilatus, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nú, confirmou em nome de Cesar a «sentença do Sanhedrin, que julga em Jerusalem…»
Immediatamente Sarêas atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céo. E os Phariseus triumphavam: junto a nós, dois muito velhos beijavam-se em silencio nas barbas brancas: outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a acclamação forense dos romanos: «Bene et belle! Non potest melius!»
Mas de subito o Interprete appareceu em cima d'um escabello, alteando sobre o peito o seu papagaio flammante. A turba emmudecera, surprehendida. E o phenicio, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em chaldaico, alargando os braços cercados de manilhas de coral:
—Escutai! N'esta vossa festa de Paschoa, o Pretor de Jerusalem costuma, desde que Valerius Gratus assim o determinou, e com assenso de Cesar, perdoar a um criminoso… O Pretor propõe-vos o perdão d'este… Escutai ainda! Vós tendes tambem o direito de escolher, vós mesmos, entre os condemnados… O Pretor tem em seu poder, nos ergastulos de Herodes, outro sentenciado á morte…
Hesitou,—e debruçado do escabello interrogava de novo o escriba que remexia n'uma atarantação os papyros e os tabularios. Sarêas, sacudindo a ponta do manto que escondia a sua oração, ficára assombrado para o Pretor, com as mãos abertas no ar. Mas já o Interprete bradava, erguendo mais a face risonha: