E, todavia, Deus sabe que elle não é agradavel, esse inverno de Londres! De manhã, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca, espessa, parda, arripiadora e sinistra: é necessario fazer a barba, com o gaz flammejando; almoça-se com todas as velas do candelabro accesas, e a carruagem que nos conduz é precedida de um archote. Ao meio dia esta decoração de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradações odiosas, ganha um amarello de óca e começa a exalar um vapor fetido. Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude, tremendo estrepito, que deve lá em cima incommodar a corte do ceu, adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.
Depois, á noite, outra mudança: toda esta sombra, este nevoeiro grosso, molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.
O gaz parece côr de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multidão violenta, o rude flammejar das vitrinas dão uma acceleração brutal ao sangue, uma vibração quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o abrasado do cognac, a paixão. Londres n'uma noite de inverno, exhala violencia e crime. E póde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que, aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro de lanternas, vae um cidadão ou uma cidadã commettendo ou preparando-se para commetter, com excepção da preguiça, um dos sete peccados mortaes.
De uma coisa se póde ter a certeza: é que não ha de faltar, aos que vão fazer o seu inverno a Londres, assumpto de cavaco. Além dos livros que se annunciam, dos escandalos que não hão-de faltar, das modas que sempre se inventam, a politica, só por si, é todo um ramalhete; revolta certa na Irlanda; processo por alta traição dos chefes da Liga da Terra, deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebellião; complicações sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os radicaes no poder... Emfim, um encanto.
Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das Memorias, olhando n'um começo de primavera para todos os lados do horizonte politico e social, e não vendo (em 1830) senão presagios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia, banhado em jubilo, quasi em extasi:
—Meu Deus, que deliciosas noites se vão passar no Club!
[ IV
O NATAL]
O Natal, a grande festa domestica da Inglaterra, foi este anno triste—d'essa tristeza particular que offerece, por um dia de calma ardente, a praça deserta de uma villa pobre, ou d'essa melancholia que infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogão apagado, n'uma sala a que se não voltará mais...
O que nos estragou o Natal, não fôram decerto as preoccupações politicas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebellião do Transvaal em que os Boeres debutaram por exterminar o 94 de linha, um dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que ameaça ensanguentar toda a Africa do Sul n'uma guerra de raças; nem a situação da Irlanda, que já não é governada pela Inglaterra, mas pelo comité revolucionario da Liga Agraria—seriam inquietações sufficientes para tirar o sabor tradicional ao plum-pudding do Natal. As desgraças publicas nunca impedem que os cidadãos jantem com appetite: e miserias da patria, emquanto não são tangiveis e se não apresentam sob a fórma flammejante de obuzes rebentando n'uma cidade sitiada, não tirarão jámais o somno ao patriota.