Não; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal como este que passamos, com um sol de uma pallidez de convalescente, deslizando timidamente sobre uma immensa peça de seda azul desbotada, um Natal sem neve, um Natal sem casacos de pelles, parece tão insipido e tão desconsolado como seria em Portugal a noite de S. João, noite de fogueiras e descantes, se houvesse no chão tres palmos de neve e cahisse por cima o granizo até de madrugada! Um desapontamento nacional!
Para comprehender bem o encanto da neve d'este famoso Natal inglez, basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o têm popularizado.
O assumpto não varia na paysagem repetida: é sempre a mesma entrada d'um parque, de apparencia feudal, por vesperas do Natal, antes da meia-noite; o ceu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a perder de vista tudo está coberto da neve cahida, uma neve branca, fôfa, alta, que faz nos campos um grande silencio. Junto á grade do parque, uma mulher e duas creanças, atabafadas nos seus farrapos, com lampeões na mão, vão cantando as lôas; e ao fundo, entre as ramagens despidas, ergue-se o massiço castello, com as janellas flammejando, abrasadas da grande luz de dentro e da alegria que as habita.
E toda a poesia do Natal está justamente n'essas janellas resplandecendo na noite nevada.
Felizes aquelles para quem essas portas difficeis se abrem. Logo ao entrar na ante-camara os tectos, as humbreiras, os espaldares das cadeiras, os tropheus de caça, apparecem adornados das verduras do Natal, das ramagens sagradas do carvalho celtico; e pelas paredes, em lettras douradas ondeiam os disticos tradicionaes—Merry Christmas! Merry Christmas! alegre Natal! alegre Natal! E o mesmo grito se repete nos shakehands que se dão ao hospede.
Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabellos louros, e de prata as barbas brancas.
Tudo está enfeitado como n'uma paschoa sagrada: dos retratos dos avós pendem ramos de flôres de inverno, as flôres da neve, e todas as pratas da casa scintillam sobre os aparadores, n'uma solemnidade patriarchal. Dos grandes lustres balança-se o ramo symbolico do mistletoe, o ramo do amor domestico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua ramagem! Quem assim as surprehender tem direito a beija-las n'um grande abraço! Tambem, que voltas sabias, que estrategia complicada, para evitar o ramo fatidico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam, e a cada momento é sob o mistletoe um grito, um beijo, dois braços que prendem uma cinta fugitiva...
E o piano não se cala n'estas noites! É alguma velha canção ingleza, em que se falla de torneios e cavalleiros, ou uma dança da Escossia, que se baila com o gentil ceremonial do passado.
E por corredores e salas, as creanças, os bébés, com os cabellos ao vento, vestidos de branco e côr de rosa, correm, cantam, riem, vão a cada momento espreitar os ponteiros do relogio monumental, porque á meia-noite chega Santo Claus, o veneravel Santo Claus, que tem trez mil annos de edade e um coração de pomba, e que já a essa hora vem caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botões, apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amavel Santo Claus! por um tempo tão frio, n'aquella edade, deixar a cabana de algodão que elle habita no paiz da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bébés o seu Natal!
Tambem, como elles o adoram, o bom Claus! E apenas elle chegar, como correrão todos, em triumpho, a puxal-o para o pé do lume, a esfregar-lhe as decrepitas mãos regeladas, a offerecer-lhe uma taça de prata cheia de hidromel quente—que elle bebe d'um trago, o glutão! Depois abrem-se-lhe os alforges. Quantas maravilhas!...