Mas d'estes personagens que apparecem pelas consoadas, o meu predilecto é Father Christmas—o papá Natal.
Esse, porém, só póde ser admirado em toda a sua gloria, quando se abre a sala da ceia: então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da meza—que lhe põe em torno, com os crystaes e os pratos, um amavel brilho d'aureola caseira. Bem vindo, papá Natal! Boas noites, papá Natal!
O respeitavel ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a bocca n'um riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as creanças o querem abraçar, e elle não se recusa, porque é indulgente.
E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarchal riso se escancara; as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e alli está, bonacheirão e veneravel, com a importancia de um deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria domestica.
E no emtanto fóra, na neve, as pobres creanças cantam as lôas: e com que vigor as cantam! É que ellas sabem que não serão esquecidas: e que d'aqui a pouco a grade se abrirá, e virá um criado, vergando ao peso de toda a sorte de cousas bôas, peças de carne, empadas, vinho, queijos—e mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus é um democrata, e, se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os vêr esvaziados no regaço dos pobres.
Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O Natal com uma lua côr de manteiga a bater n'uma terra tepida de Primavera torna-se apenas uma data no calendario. O lume não tem poesia intima; não ha lôas; Santo Claus não vem; o papá Natal parece um boneco insipido; não se colhe o mistletoe. Não ha mesmo a alegria de abrir a janella e pôr no rebordo, dentro d'uma malga, a ceia de migalhas do Natal para os pardaes e para os outros passarinhos que tanta fome soffrem pelas neves. Emfim, não ha Natal! Foi o que succedeu este anno...
Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio. E isto é o essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se se não tiritou toda a noite entre quatro farrapos, é perfeitamente indifferente que nos castellos as damas bocejassem.
Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume do salão chegue a aquecer—quando se considere que lá fóra ha quem regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma codea de dois dias. É justamente n'estas horas de festa intima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoismo—que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de sympathia universal, e que a consciencia da miseria em que se debatem tantos milhares de creaturas, volta com uma amargura maior. Basta então vêr uma pobre creança, pasmada deante da vitrine de uma loja, e com os olhos em lagrimas para uma boneca de pataco, que ella nunca poderá apertar nos seus miseraveis braços—para que se chegue á facil conclusão que isto é um mundo abominavel. D'este sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas, o egoismo parte á desfilada, ninguem torna a pensar mais nos pobres, a não ser alguns revolucionarios endurecidos, dignos do carcere—e a miseria continúa a gemer ao seu canto!
Os philosophos affirmam que isto ha-de ser sempre assim: o mais nobre de entre elles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando, ameaçou-n'os, n'uma palavra immortal, que teriamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções successivas fazer falhar esta sinistra profecia—mas as revoluções passam e os pobres ficam.
N'este momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os servos do ducado de Leicester estão morrendo de fome, e o duque de Leicester está retirando annualmente, do trabalho duro que elles fazem, quatrocentos contos de reis de renda! É verdade que a Irlanda está em revolta; é verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no craneo.