E o resultado? D'aqui a vinte annos os trabalhadores de Leicester estarão de novo a soffrer a fome e o frio—e o filho do duque de Leicester, duque elle mesmo então, voltará a arrecadar os seus quatrocentos contos por anno.
Não é possivel mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto n'uma burguezia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado peior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. D'onde se prova que esta humanidade é o maior erro que jámais Deus cometeu.
Aqui estamos sobre este globo ha doze mil annos a girar fastidiosamente em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa estrada do progresso e da perfectibilidade: porque só algum ingenuo de provincia é que ainda considera progresso a invenção ociosa d'esses bonecos pueris que se chamam machinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas e difusas que se denominam systemas sociaes.
Nos dois ou trez primeiros mil annos de existencia trepámos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo n'uma cambalhota secular.
O typo secular e domestico de uma aldeia Arya do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nos, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo domestico e social. Já não fallo de gregos e romanos: ninguem hoje tem bastante genio para compôr um côro d'Éschylo ou uma pagina de Virgilio; como escultura e architectura, somos grotescos; nenhum millionario é capaz de jantar como Lucullus; agitavam-se em Athenas ou Roma mais ideias superiores n'um só dia do que nós inventamos n'um seculo; os nossos exercitos fazem rir, comparados ás legiões de Germanicus; não ha nada equiparavel á administração romana; o boulevard é uma viella suja ao lado da Via Áppia; nem uma Aspasia temos; nunca ninguem tornou a fallar como Demosthenes—e o servo, o escravo, essa miseria da Antiguidade, não era mais desgraçado que o proletario moderno.
De facto, póde-se dizer que o homem nem sequer é superior ao seu veneravel pae—o macaco: excepto em duas coisas temerosas—o soffrimento moral e o soffrimento social.
Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inutil: afogal-a n'um diluvio. Mas afogal-a toda, sem repetir a fatal indulgencia que o levou a poupar Noé; se não fôsse o egoismo senil d'esse patriarcha borracho, que queria continuar a viver, para continuar a beber, nós hoje gosariamos a felicidade ineffavel de não sermos...
[ V
Litteratura de Natal]
Uma das cousas encantadoras que nos traz o Natal, são esses lindos livros para creanças, que constituem a litteratura de Natal.