Para o calmar e occupar, o que mais serviria ao chanceller seria uma guerra, mas nem sempre se póde inventar uma guerra, e começa a ser grave encontrar em campo a França preparada, mais forte que nunca, com os seus dois milhões de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza inconcebivel, que, como dizia ha dias a Saturday Review, é um phenomeno inquietador e difficil d'explicar.

Portanto, á falta d'uma guerra, o principe de Bismarck distrahe a attenção do allemão esfomeado—apontando-lhe para o judeu enriquecido. Não allude naturalmente á morte de Nosso Senhor Jesus Christo. Mas falla nos milhões do judeu e no poder da Synagoga. E assim se explica a estranha e desastrosa declaração do governo.

Da outra «sensação», o romance de Lord Beaconsfield, Endymion, não me resta, n'esta carta, espaço para rir. Figuram n'elle, sob nomes transparentes, Beaconsfield, elle proprio, Napoleão III, o principe de Bismarck, o cardeal Manning, os Rothchilds, a imperatriz Eugenia, duquezas, lords, marechaes... emfim um ramalhete de flôres, pelo qual o editor Longman pagou cincoenta e quatro contos de reis fortes.

Jovens de lettras, meus amigos, ponde vossos olhos n'este exemplo de ouro! Sê prudente, mancebo; nunca, ao entrar na carreira litteraria, publiques poema ou novella sem a antecipada precaução de ter sido durante alguns annos—primeiro ministro de Inglaterra!

[ VII
A Irlanda e a Liga Agraria]

É necessario fallar da Irlanda, fallar da Liga Agraria, fallar de Parnell...

Ha seis mezes que este homem, esta associação, essa ilha inquieta, são o cuidado supremo, a preoccupação pungente da Inglaterra e de tudo o que em Inglaterra pensa, desde os homens de Estado até aos caricaturistas. E dentro em breve o sentimento europeu, o sentimento universal, vae-se exaltar pela questão da Irlanda, como outr'ora pela questão da Polonia.

A questão da Polonia! oh saudosos dias passados! Foi esse um dos meus primeiros enthusiasmos! N'esse tempo, ser polaco era synonimo de ser heroe: e a fórma mais usual da paixão, n'uma alma de vinte annos, não consistia no desejo de se subir ao balcão de Julieta, mas de partir e ir tomar as armas pela Polonia. Em Coimbra, sempre que nos reuniamos mais de quatro amigos, faziamos logo esse projecto, gritando: —Viva a Polonia! Os jornaes transbordavam de poemas á Polonia e de injurias ao Urso do Norte! Empenhavam-se batinas e compendios para soccorrer a Polonia, em subscripções enthusiasticas. Em beneficio da Polonia eu representei muito melodrama em que ora, virgem trahida e vestida de branco, soluçava com as minhas tranças soltas—ora, traidor, soltando gargalhadas cynicas, cravava um ferro no peito de Condé!