Por fim não eramos mais insensatos do que o povo de Paris em 1848, marchando em procissão a reclamar do governo provisorio a libertação da Polonia. «Mas é uma guerra com a Russia, é um conflicto europeu!» diziam os prudentes. E os enthusiastas respondiam: «Não tem duvida; a França é o Messias, é a salvadora dos opprimidos: a França é o Christo das nações; sendo necessario, deve morrer por ellas.»

Mas desde 1848 muita agua tem passado sob as pontes, como dizem em Paris: e mesmo muito sangue.

Por estes tempos de opportunismo e de naturalismo, a pobre Irlanda não inspirará jámais o culto piedoso que votamos outr'ora á Polonia.

De resto a Polonia e a Irlanda constituem dois casos differentes. É certo, porém, que vistos de longe, atravéz da nevoa lacrimosa da sentimentalidade, offerecem similitudes. A Irlanda póde talvez considerar-se uma Polonia constitucional: ha aqui como na Polonia uma raça opprimida, cujo solo foi dividido entre os grandes vassalos, as familias historicas da nação conquistadora, e que desde então tem permanecido em servidão agraria. Sómente na Irlanda o arbitrario e os abusos, que esta situação origina, são recobertos pelo regimen parlamentar de um bello verniz de legalidade: e a Irlanda soffre as miserias de um paiz vencido e explorado—mas dentro das fórmas constitucionaes.

O irlandez parece-se com o polaco em certos pontos: são ambos arrebatados, imprudentes, espirituosos, generosos e poetas. Como o Polaco, o irlandez catholico odeia o conquistador, sobretudo por elle ser heretico de nacionalidade, misturando com o odio politico o conflicto de religião. Como na Polonia, ha na Irlanda a legenda patriotica da independencia, das revoltas suffocadas, dos agitadores heroicos, legenda que falla á imaginação popular tanto como a mesma religião, inspirando eguaes fanatismos, de tal sorte que o irlandez é tão devoto dos seus santos como dos seus patriotas; como o polaco despreza o russo, assim o irlandez olha o anglo-saxonio como um barbaro e um estupido e tem por elle toda a antipatia desdenhosa que uma raça de improvisadores póde ter por uma raça de criticos e de analistas. Na ordem social, como na ordem domestica, ha entre a Polonia e a Irlanda outras curiosas afinidades. A ultima táctica da Irlanda, mesmo, é imitada da Polonia: a Irlanda vae apelar para a Europa e é Victor Hugo quem fallará em nome dela, n'um manifesto com o titulo de Opressor e Oprimido.

Mas a Inglaterra realmente não se parece com a Russia: nem mesmo atravéz da nevoa da sensibilidade, atravez da paixão pela causa da Irlanda, o mais esclarecido dos liberalismos póde ser confundido com o mais boçal dos despotismos. E todavia a Inglaterra, para não perturbar os interesses tyrannicos d'um milhar de ricos proprietarios, deixa na miseria quatro milhões de homens. Tem todo o territorio irlandez occupado militarmente. Apenas um patriota começa a ter influencia na Irlanda, prende o patriota. Quando a eloquencia dos deputados irlandezes se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrupulos uma tradição parlamentar de seculos. Vae governar a Irlanda pela Lei marcial, como qualquer czar. E, para suspender os planos da Liga Agraria, viola os segredos das cartas.

Esta questão da Irlanda apresenta-se tão complexa, tão confusa como o proprio chaos antes da grande façanha de Jehovah. Na Irlanda começa por haver tres nações distinctas com interesses contradictorios: os irlandezes catholicos, os irlandezes protestantes ou orangistas, os inglezes e proprietarios escocezes. A questão da propriedade é sem duvida a essencial: mas existem outras, a questão religiosa, a questão policial, a questão judicial, a questão municipal, etc., etc. E sobre cada uma d'estas questões é difficil achar dois irlandezes de accordo. Cada aldeia se torna assim um campo de batalha: e, como são eloquentes e sarcasticos, o grande fluxo labial, a paixão do epigramma amplificam e azedam as dissensões.

Mesmo dentro da egreja catholica, que deveria conservar a tradicção da Unidade—tumultua a discordia: o clero parochial está em lucta com os dignitarios episcopaes: e é raro que o clero de um condado não divirja, de sentimentos e de predica, com o clero do condado visinho. No mundo dos patriotas revolucionarios não existe uma harmonia melhor: a Liga Agraria não aceita os Fenians, e os Fenians abominam as tendencias parlamentares dos Home-rulers: e dentro mesmo do partido dos Home-rulers ha democratas e conservadores. É um numeroso conflicto por toda a pobre Irlanda.

Os irlandezes dizem, porém, que se lhes fosse dada a autonomia, horas depois de declarada a Republica Irlandeza, todas estas questões se resolveriam de per si e o paiz seria como um mar que amansa e fica em equilibrio.

Até agora, porém, essa falta de unidade é adduzida justamente como evidencia dos perigos que teria essa autonomia.