Os inglezes pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda sahisse de sob a tutela do bom senso e do saber inglez, no instante que essa raça impressionavel, excitada, fanatica e pouco culta fosse abandonada a si mesma, começaria uma guerra civil, uma guerra religiosa, differentes guerras agrarias, que bem depressa fariam da Verde Erin um montão de ruinas n'uma poça de sangue.

Se os irlandezes se não entendem bem sobre os males da Irlanda, os inglezes comprehendem-se menos ácerca dos remedios para a Irlanda. E a confusão em que se está provém principalmente da abundancia da discussão. Não ha villota, ou mesmo aldeia d'Inglaterra, que não tenha um jornal do tamanho da Gazeta de Noticias, com oito paginas e typo cerrado. E d'alto a baixo esta vastidão de papel, desde que começou a agitação da Liga Agraria, é occupada por estudos e artigos sobre a Irlanda. Multiplique-se isto pelas tres ou quatro mil gazetas que a pobre Inglaterra nutre sobre a sua epiderme: juntem-se-lhe os artigos dos Semanarios, dos Quinzenarios, das Revistas e dos Magazines, os pamphletos, as brochuras, os ensaios inumeraveis como as estrellas do céo, os livros e tratados de toda a sorte, os discursos do parlamento, as arengas dos meetings, as conferencias, os sermões, as controversias publicas, as lições, emfim, toda essa colossal litteratura que nestes ultimos mezes tem tomado por assumpto a Irlanda.

E digam-me se, com todo este mundo de informação, de discussão, de theorias, de projectos, de systemas, de opiniões, de imaginações,—não é natural que o cerebro da Inglaterra esteja, n'esta questão da Irlanda, perfeitamente desorganisado. O meu está. Mas n'este cahos mental tenho illustres companheiros: o grande Carlyle costumava dizer que a sinceridade e a elevação de alguns patriotas irlandezes era a unica coisa nitida e clara que elle conseguia distinguir no escuro tumulto da confusão irlandeza...

Ha tambem outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietaria, os land-lords indignam-se e reclamam o auxilio da policia ingleza quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionaria—comer!

Aqui está, por exemplo, Sua Graça o Duque de Leicester, para não citar outros de nomes menos sonoros: os seus rendimentos na Irlanda sobem a quatrocentos contos de reis—e o infeliz tem ainda uns duzentos contos mais das suas propriedades na Inglaterra! Este fidalgo, escuso talvez dizel-o, não soffre frio e não passa fome: por outro lado, a população de rendeiros que trabalham as suas terras, e que com o seu suor e o seu esforço lhe arrancam do sólo este rendimento,—a unica cousa que realmente tem é fome e frio. Mas este anno tiveram mais fome e mais frio que de costume: e lá foram em farrapos, e com os pés nús sobre a neve, supplicar a Sua Graça, o Duque de Leicester, que lhes fizesse uma diminuição de dez por cento nas rendas—exageradas, absurdas e devoradoras. Sua Graça respondeu (pela bocca dos seus administradores, naturalmente: por sua propria bocca um Duque inglez nunca falla senão com outro Duque) respondeu que as suas circumstancias não lhe permittem essa liberalidade—e que a repetição d'uma tal supplica não podia ser tolerada.

E os rendeiros de Sua Graça lá voltaram de cabeça baixa, para o frio e para a fome.

Direi de passagem que se o pedido, em logar de ser feito pelos seus rendeiros da Irlanda, partisse dos seus rendeiros da Inglaterra, Sua Graça apressar-se-hia a satisfazel-o rasgadamente. É porque a Irlanda é um paiz conquistado, e, quando o proletario se queixa, a policia fila-o pela gola: mas, em Inglaterra, quando o operario inglez ergue a sua voz de leão, a policia fica immovel, os Duques empallidecem, e o edificio monarchico e feudal treme nas suas bases.

Mas, a proposito de Sua Graça o Duque de Leicester (gozemos o mais tempo possivel esta illustre companhia: quand on prend du Duc on n'en saurait trop prendre) deixem-me dizer-lhes em resumo quaes são as relações agrarias entre um proprietario, um land-lord, e os seus rendeiros.

O sólo, é claro, pertence ao lord. Por que titulo não sei; talvez uma de suas avós, n'uma noite que estava mais decotada, attrahisse o inconstante olhar do amavel Carlos II, nos saráus galantes da Restauração: d'esse olhar provém, acaso, esta bella propriedade. O alegre Stuart era tão generoso! tinha-se vivido tão pobremente, tão tristemente sob a dictadura puritana do Cromwell!... Depois, se Carlos II tinha pouco dinheiro, (o desgraçado recebia uma mesada do rei de França!) não lhe faltavam terras na Irlanda. Trez leguas de pastos, ou de terreno aravel, por um beijo e os seus acessorios, não é caro para um Stuart. E para uma fraca dama ou para seu esposo é um famoso negocio. Note-se, por Deus, note-se que eu estou fazendo estas supposições sobre um typo de Lord abstracto. Nem toda a minha sympathia pelos trabalhadores irlandezes me levaria a suspeitar das purissimas senhoras da Casa de Leicester...

Como proprietario do sólo, pois, o Lorde arrenda-o ás familias que de geração em geração vivem nas suas terras: o irlandez prende-se ao sólo como uma arvore pelas raizes, e muitas vezes prefere morrer a abandonar um torrão arido que o não nutre. A emigração irlandeza para a America sáe principalmente da população operaria das cidades. Ora, nos contractos de renda, o homem de trabalho está absolutamente á mercê do senhor da propriedade.