Estas expulsões, que se chamam evictions, são o terror irlandez. Que ha-de fazer um miseravel com mulher, creanças, ás vezes uma avó entrévada, que se vê d'uma hora para a outra no meio de uma estrada, por um terrivel inverno, sem um farrapo para se cobrir, sem uma codea de pão, sem casa, sem destino e sem esperança? E note-se que isto passa-se em regiões como as da Irlanda, pouco habitadas, com um casal de legua em legua.

Esta falta de vizinhos torna estas expulsões mais terriveis. Quantas milhas a caminhar sob a chuva ou sob a neve, com as creanças chorando de fome, os doentes levados n'uma padiola, até que se encontre algum rendeiro mais feliz que ainda tem um canto de cabana onde azyle a familia errante! Mas por pouco tempo—porque todos são pobres, todos estão endividados, todos ameaçados da expulsão...

E durante esse tempo Sua Graça banqueteia-se, bebe Chateaux Margaux de 6$000 reis a garrafa, caça, etc.—e aluga a fazenda, d'onde expulsou o miseravel n.º 1, ao rendeiro n.º 2. Sómente o n.º 2, como a encontra melhorada pelo antecedente, paga-a mais cara: e depois de explorado, sugado, expremido, durante dois ou trez annos, é expulso—para dar logar ao n.º 3. Este infeliz passa pelo mesmo processo de trituração, et sic per omnia...

E as expulsões são inevitaveis, porque, com a altura absurda das rendas, é impossivel que o rendeiro as possa pagar—e viver.

Isto, como comprehendem, é apenas um vago contorno da realidade, apontada nas suas feições essenciais.

Descendo-se a detalhes—vê-se então uma horrorosa tréva de injustiça e miseria.

Mas como pódem taes cousas passar-se no seculo XIX, e ao lado do povo inglez?

Como permitte uma nação tão justa a existencia de tanto oprobio?—dir-me-hão.

Justamente essa pergunta a fazia Victor Hugo ha dias a Parnell, o chefe da Liga Agraria, na sua celebre entrevista. E eu responderei com as palavras de Parnell.

Taes cousas passam-se no seculo XIX. E o povo inglez não as sabia: pelo menos eram-lhe contadas de tal modo que, em logar de piedade, só sentia colera.