E isto é exacto. Os males da Irlanda eram conhecidos pela voz dos seus agitadores. Mas estes homens, desde O'Connell cometteram sempre o erro de misturar as queixas d'um proletariado opprimido ás aspirações d'independencia nacional: de sorte que a Inglaterra não attendia á reclamação dos trabalhadores pela irritação que lhe causavam as exigencias dos patriotas. O povo inglez não póde ouvir fallar em que a Irlanda se separe, e se constitua em republica: mas está prompto a ordenar que se lhe dê um justo regimen de propriedade.
O erro dos Fenians foi confundir a questão nacional com a questão agraria: o rendeiro miseravel apparecia então aos inglezes com o aspecto de um rebelde á União; e envolvendo-os ambos no mesmo odio, porque lhes suppunha identicas ambições, suffocou sem discernimento, a voz que só pedia pão e a voz que reclamava autonomia.
E todavia o povo inglez sentiu sempre instinctivamente que a Irlanda soffria. Muitas vezes pediu para ella uma reforma das leis agrarias. Era, porém, um pedir vago, sem cohesão: mais a expressão de sensibilidades feridas do que a intimação da vontade nacional.
De sorte que os parlamentos, sahidos das classes que têm interesse em manter a Irlanda na miseria, contentavam-se em fazer reformas de detalhes, reformas insignificantes e imperceptiveis, para dar uma satisfação á compaixão ingleza: e o regimen antigo ficava inatacado como d'antes. Mas isto bastava para que alguns humanitarios dissessem com um suspiro de allivio: «Emfim lá se fez alguma coisa pela Irlanda!» De facto não se tinha feito nada.
Era, pois, necessario que a questão da propriedade fôsse separada da questão da independencia: que se fizesse um movimento legal dentro da constituição, com o fim exclusivo de terminar os abusos dos land-lords, calando toda a ideia de arrancar a Irlanda ao Reino Unido. Então haveria a certeza de que o povo inglez, vendo a questão agraria e os seus horrores, isoladamente, no seu relevo proprio, desembaraçada das declamações rebeldes e das agitações separatistas—determinasse dar a tantos males, e tão antigos, um remedio radical. Foi isto que tentou a Liga Agraria.
Esta carta é longa: e apresentando esta formidavel entidade—a Liga Agraria, eu devo fazer como o illustre Ponson du Terrail, quando introduzia um novo personagem, o heroe providencial, n'um fim de folhetim: deixar a historia das suas façanhas, das suas virtudes e da sua belleza, com o interesse suspenso, até ao folhetim seguinte. Não se esqueçam que ficamos no momento em que, n'este palco da Historia Irlandesa subitamente apparece ao fundo, misteriosa e grave, a Liga Agraria.
[ VIII
Lord Beaconsfield]
[ I]
Recomeçando hoje estas CARTAS DE INGLATERRA—que eu não podia escrever de Lisboa, onde estive alguns mezes gozando os ocios de Tityro, sub tegmine fagi, á sombra d'essa faia constitucional que se chama o Gremio—devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamin Disraeli, Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de maio, pela madrugada, em Londres, na sua casa de Curzon Street. A doença de Lord Beaconsfield, uma complicação de gotta, asthma e bronchite, arrastou-se cruel e longa; o mal porém foi debelado e Lord Beaconsfield succumbiu realmente á fraqueza, á fadiga dos setenta e sete annos e uma existencia tão episodica, tão cheia, tão emotiva, que ella ficará como o seu melhor romance, bem superior em estylo e interesse a Tancredo ou a Endymion.