A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a primeira é a sua idéa (que inspirou toda a sua politica), de que a Inglaterra deveria ser a potencia dominante do mundo, uma especie de Imperio Romano, alargando constantemente as suas colonias, apossando-se dos continentes barbaros e britannizando-os, reinando em todos os mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo, impondo as suas instituições, a sua lingua, as suas maneiras, a sua arte, tendo por sonho um orbe terraqueo que fôsse todo elle um imperio Britannico, rolando em rythmo atravez dos espaços.
Este ideal, que tomou o nome de imperialismo nos dias de gloria de Lord Beaconsfield, é uma idéa querida a todo o inglez; os mesmos jornaes liberais que com tanto furor denunciavam os perigos d'esta politica romana, no fundo gozavam uma immensa satisfação de orgulho em proclamarem a sua inconveniencia. Havia tanta prosapia britannica em conceber um tal Imperio, como em o condemnar, e em dizer, com um ar de nobre renunciamento: «Não nos convém a responsabilidade de governar o mundo!»
Lord Beaconsfield, sendo a encarnação official d'esta idéa imperial, tornou-se naturalmente tão popular como ella. Foi considerado então como o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente aos olhos do mundo a espada de John Bull. Gladstone, Bright, a grande escola liberal, conhecida pela escola de Manchester, era agora accusada de ter, com a sua politica de abstenção só occupada de melhoramentos materiaes, de finanças, de civilização interna—deixado definhar, morrer o prestigio inglez na Europa.
E ai vinha agora aquele extraordinario judeu, apoiado na riqueza, na prosperidade interior que lhe tinham legado os liberaes, collocar de novo a Inglaterra á frente das nações, fazendo ressoar ao longe e ao largo a sua voz de leão...
Todo o paiz andou durante annos inchado com esta grandiosa filaucia, que Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos bellicosos, as ameaças theatraes, as concentrações de frotas, um constante movimento de regimentos, invasões aqui e além, a occupação de Chypre, a quasi absorpção da propriedade do isthmo de Suez, sempre algum lance brilhante em que a Inglaterra apparecia entre os fogos de Bengala da sua eloquencia, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de vêr que a espada da Inglaterra, depois de flammejar um momento nos ares, era invariavelmente recolhida á bainha; apesar de comprehender que o dinheiro se gastava como a agua das fontes; apesar de sentir que os impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando sobre os hombros responsabilidades desproporcionadas com a sua força.
Depois, um dia, o grande senso pratico da Inglaterra viu claramente a necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo—e de se occupar da machina interior, que começava a desarranjar-se: pôz fóra o grandioso Beaconsfield, e chamou o pratico Gladstone—o homem que reconstitue as finanças, que allivia os impostos, que faz as grandes reformas interiores... Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o typo do estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial da patria.
A esta causa de popularidade deve juntar-se outra—a reclame. Nunca um estadista teve uma reclame igual, tão continua, em tão vastas proporções, tão habil. Os maiores jornaes de Inglaterra, da Allemanha, da Austria, mesmo da França, estão (ninguem o ignora) nas mãos dos israelitas. Ora o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord Beaconsfield como um judeu—apesar das gotas d'agua christã que lhe tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impôr pela sua personalidade a superioridade da raça judaica,—e por outro lado nunca obstou a que o judaismo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o dinheiro judeu que lhe paga as suas dividas; depois é a influencia judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no parlamento; é a ascendencia judaica que consagra o exito do seu primeiro ministerio; é emfim a imprensa nas mãos dos judeus, é o telegrafo nas mãos dos judeus, que constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador, como escriptor, como heroe, como genio!
Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um romance tal como nós modernamente o comprehendemos. Alguns dos seus romances são pamphletos em que os personagens constituem argumentos vivos, triumphando ou succumbindo, não segundo a logica dos temperamentos e as influencias do meio, mas segundo as necessidades da controversia ou da these. Outros fórmam verdadeiras allegorias como as tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos publicos. N'um dos mais celebres, Lothair, ha um mancebo ideal, encarnação do espirito inglez, que ama successivamente tres mulheres: uma italiana casada com um americano, bella creatura de perfil classico e fórmas de Deusa, que representa a Democracia; uma ardente rapariga de cabellos negros e revoltos, sempre em extasi, que é a personificação da Egreja Catholica; e emfim uma doce e loura donzella, séria, grave e terna, que symboliza o Protestantismo. Depois d'hesitar entre estas tres paixões—decide-se, como um bom inglez, por casar com o Protestantismo, quero dizer, com a loura, conservando um culto vago e secreto pela Democracia, quero dizer, pela soberba americana de perfil marmoreo. Moral: a felicidade d'um povo está na posse d'uma forte moral christã, alliada a um uso moderado da liberdade. Isto dava um excelente e apparatoso fresco na sala d'um parlamento. E Lord Beaconsfield accentua os detalhes allegoricos com uma tal ingenuidade, que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a americana, isto é, a Democracia, apparece sempre em soirées e festas vestida á grega, com uma estrella de brilhantes na fronte, como a cabeça da republica nas moedas francezas de cinco francos!
O meio, em que os seus romances se passam, tem quasi sempre um ar feerico: tudo são, como disse ha pouco, palacios d'um fabuloso e sombrio luxo, festas como as não tiveram os Medicis, fortunas de banqueiros, de duques, perante as quaes os Cresus, os Monte-Christos, os Rothchilds, todos os ricaços da lenda ou da realidade apparecem como despreziveis pelintras.
A linguagem d'estes personagens corresponde ao esplendor das suas moradas e ao nebuloso dos seus destinos. Misses de dezoito annos, habitando prosaicamente Belgrave Square, fallam aos seus namorados com a pompa allegorica do Cantico dos Canticos; e quando (o que é frequente) dois brilhantes espiritos como Sidonia ou Mrs. Coningsby conversam, veem-se, cruzando rapidamente d'um a outro labio, as imagens rutilantes, os luminosos conceitos, como se as duas creaturas se estivessem recitando um ao outro numeros do Intermezzo ou sonetos de Petrarcha.