Esta linguagem, de resto, convem ás idéas, aos sentimentos, ás aventuras que elle atribue aos seus typos principaes; tudo o que é humano e real fica absolutamente de fóra d'essas transcendentes creações: fallando como poetas, comportam-se naturalmente como chimeras.
O seu mais famoso heroe, Tancredo, vae a Jerusalém e á Syria com este fim: penetrar o mysterio asiatico. Não percebem? É facil. Sendo Jerusalém e as planicies da Syria o unico ponto do Universo em que Deus, em tempos, conversou com o homem, em que appareceram os prophetas e os Messias, em que das sarças, do murmurio dos rios e do echo dos desertos surgiram as Leis Novas, dando á humanidade destinos novos—o moço Tancredo parte, para que lá, n'esses logares, Deus lhe falle, um raio de luz o divinize, uma religião lhe seja revelada, e tendo partido de Londres como simples lord, possa regressar a Regent Street, como Messias e regenerador de sociedades!
E (perguntar-me-hão) o que succede a Tancredo na Syria? O que succede a todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras paginas partem para sobrehumanos destinos, como os antigos cavalleiros da Tavola Redonda: succede-lhe que casa com uma linda e honesta menina, e que tem muitos filhos no meio de muita felicidade...
E o mysterio asiatico? Parece que o não achou. Mas descobriu coisas curiosas e de rara fabula: por exemplo, um povo pagão, onde reina uma bella sacerdotisa de Apollo, que celebra ainda hoje nobres cultos hellenicos, e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavalleiro christão, depois de a defender da invasão d'um outro povo, que adora idolos infames, foge, foge á desfilada, deixando a classica rainha a gemer de amor aos pés da estatua d'Astarte. Depois elle mesmo está para ser rei do Libano. Emfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto se passa ahi por 1855, no tempo da Exposição de Paris.
Mas que prodigioso talento, que arte, que amplidão d'imaginação para pôr de pé, em todo o seu brilho, este desordenado monumento d'Idealismo!
Com effeito, que artista fino e por vezes poderoso!
Apesar d'este abuso do gongorismo na ficção, do vago e ao mesmo tempo do amaneirado das suas concepções, d'estes enredos e d'estes personagens que por vezes parecem uma mystificação—os seus romances nunca deixam d'interessar, direi mesmo, nunca deixam de captivar. Atravessa-os sempre um enthusiasmo sincero—em que se sente o amor poetico com que elle segue os seus generosos heroes, as suas bellas mulheres, n'esses destinos fóra da realidade. Depois a sua fina sensibilidade, o seu idealismo um pouco convencional, mas de grande elan, os requintes d'um gosto supremo—levam-no a dotar os seus personagens, e a acção em que elles se movem, de uma tal belleza espiritual, de uma tão alta nobreza de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginação namora-se d'esse mundo ficticio, d'essa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar ou de baixo, e onde brilham fórmas maravilhosas e transcendentes do pensar, do sentir e do viver.
Isto dá-lhe uma qualidade encantadora: é luminoso. Personagens, paizagens, interiores, o proprio movimento da aventura—tudo está banhado n'uma luz serena e graciosa. Pintando as cousas fóra da verdade social, não tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclue dos seus vastos quadros tudo o que na vida é duro, brutal, feio, máu, estupido—as fórmas varias da baixeza humana.
Escrevia para uma sociedade rica, nobre, litteraria, requintada—e mostra-lhe um mundo d'ouro e crystal, girando n'uma bella harmonia, batido de uma luz côr de rosa...