Tenho insistido n'este lado não real dos livros de Lord Beaconsfield. Todavia, um homem d'estes, antigo dandy, critico, estadista, habituado a governar, observador por necessidade, não podia deixar de ter accumulado uma grande experiencia dos caracteres e da sociedade; e essa experiencia deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da vida. E lá está com effeito. Por entre as suas grandes creações symbolicas, de indisciplinada imaginação (Tancredo, Lothair, Sibyl) move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras de carne, postas de pé com um singular vigor de desenho e côr. São os seus personagens secundarios, os seus politicos, os seus intrigantes, os seus homens de lettras, as suas mulheres da moda, os seus lords elegantes. Todos estes typos fôram copiados do natural. Londres conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escandalo d'estes retratos foi mesmo uma das grandes causas do successo de Lord Beaconsfield. Mas, mesmo para quem não frequenta a sociedade de Londres, e não conhece os originaes, estes typos interessam—porque vivem.
Ordinariamente são apenas esboços, mas magistraes; e apparecendo assim em destaque, ao lado de creações de pura imaginação, descomedidamente poeticas e de contornos fluctuantes, esses typos reaes adquirem um relevo maior, como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por entre o nebuloso de uma mythologia.
São elles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield só elles ficarão lembrados.
Seria impossivel, n'este estudo ao correr da penna, feito só de impressões, marcar todos os traços de uma individualidade tão complexa como a de Lord Beaconsfield.
Poucos homens têm produzido um tão curioso conflicto de apreciações: diz-se d'elle que foi um grande homem de estado, e diz-se tambem que foi apenas um charlatão; a critica tem-n'o apresentado como um romancista de genio—e como um máu alinhavador de novellas! Homem de partido, soffreu em politica e em litteratura, ora a idolatria, ora o rancor da parcialidade partidaria. Uma coisa porém tinha a seu favor: é que todos os mediocres o detestavam.
É difficil, de resto, separar n'elle o politico do romancista: sempre fez politica nas obras d'arte, que se tornavam assim resoantes manifestos das suas idéas de estadista—e fez romance no governo, que parecia muitas vezes um scenario de drama, sobre o qual elle estava de penna na mão, combinando os lances d'effeito. Seja como fôr, a Inglaterra perdeu nele um dos seus genios mais pittorescos e mais originaes.
Individualmente foi um feliz. Tendo, em novo, lançado o plano da sua vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realisou-o plenamente em todos os pontos, n'um continuo triumpho. Foi formoso, foi amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como elle dizia), deixou uma vasta obra litteraria, foi o confidente escolhido da sua rainha, governou a sua patria, pesou nos destinos do mundo, e findou n'uma apotheose. Foi então absolutamente, ininterrompidamente, ditoso? Não. Este homem triumphante viveu acompanhado d'um secreto, d'um pequenino, d'um ridiculo desgosto: nunca pôde fallar bem francez!