A meu vêr, o que impediu sempre que Arabi fosse um reformador—era o ser elle um coronel fellah, filho de fellah, nascido n'uma d'essas tristes aldéas, montões de choças feitas de lama secca, que negrejam ao comprido do Nilo. Tendo vivido na abjecta miseria dos fellahs—a peior que existe sobre a terra—elle, mais que ninguem, tinha direito a erguer-se em nome dos longos aggravos do fellah. Mas, ao mesmo tempo, Arabi era um soldado que ganhara os seus postos nas prolongadas guarnições do Alto Egypto e nas campanhas do Soudan, que voltára de lá com todo o orgulho da farda, e todo o pedantismo do sabre, não só repassado de militarismo, mas enfrascado em militança—e, portanto, prompto, desde que a sua voz resoava tão alto, a pôl-a ao serviço das pretenções do exercito... Elle representava, por origem e por profissão, as duas grandes classes do povo egypcio—o soldado e o fellah;—e desde o momento em que entre os egoistas, os voluptuosos, os escravos e os interesseiros, elle pareceu ser o unico homem no Egypto que se arriscava, de bom grado, pelas suas ideias, ao exilio e á enxovia,—tornou-se bem depressa, e naturalmente, chefe do partido popular que queria as grandes reformas nacionaes, e pela mesma occasião caudilho do partido militar, que só appetecia vantagens de classe. Assim, em Arabi, o patriotismo confundia-se infelizmente com a insubordinação.

Nas suas reformas encontravam-se, n'uma triste mistura, ao lado de idéas largas, liberaes, contendo a revindicação dos direitos do trabalhador, as mais especiosas exigencias do quartel, revelando o official revoltado. Era com o mesmo enthusiasmo, e como se as duas cousas tivessem egual valor na obra da regeneração do Egypto—que elle pedia uma constituição parlamentar, e augmento de soldo e subida de posto para os coroneis seus camaradas. Que aconteceu? Que na Europa, aquelles que desejavam a continuação do regimen khedival (empreza financeira d'onde sahiam grossos dividendos) fizeram tanto ruido em torno das escandalosas pretenções da tropa, que não deixaram escutar os justos pedidos do povo, e desacreditaram facilmente Arabi, escondendo o seu bom lado de patriota, pondo em relevo o seu mau lado de coronel turbulento.

Toda a revolução dirigida por coroneis é justamente suspeita ao nosso moderno espirito europeu; mas Arabi é um egypcio; e no Egypto, onde o povo fellah, apesar de tão intelligente como qualquer das nossas plebes, é pouco mais que uma irresponsavel horda de escravos, e onde o exercito constitue a classe culta—a obra de progresso tem necessariamente de ser feita pelo soldado. Na Europa, porém, não se sabe isto—ou, antes, finge-se que não se sabe. As exigencias da tarimba puzeram na sombra as reclamações da cabana—e Arabi perdeu na Europa a auctoridade que podia ter como chefe dos fellahs por fallar de espada na mão, d'entre um quadrado de soldados...

De certo, Arabi não é um Mazzini, nem um Luiz Blanc. É um arabe do antigo typo, que apenas leu um livro—o Alcorão. Mas, como homem, possue qualidades de intelligencia, de coração, de caracter, que não ousam negar aquelles mesmos que o estão combatendo tão brutalmente. E como patriota, está á altura dos grandes patriotas: havia certamente muito egypcio no Egypto que abominava o sordido regimen khedival e soffria de vêr o rico valle do Nilo devorado pelo estrangeiro, como outr'ora pelos gafanhotos;—mas esses limitavam-se a curvar tristemente os hombros, invocando o nome de Allah.

Este é o primeiro que entendeu que Allah, apesar de grande e forte, não póde attender a tudo, e que, portanto, se resolveu a tirar a espada em nome do fellah, contra a oppressão colligada dos pachás turcos e dos agiotas christãos.

Quaes eram, por fim, as reformas de Arabi, esse monstro de sedição?

Arabi queria, em primeiro logar, o fim da auctoridade absoluta do Khediva, e o Egypto governado por uma Assembléa eleita; e, como consequencia d'esse novo regimen, uma reforma radical no uso dos dinheiros publicos, que até ahi iam parte para a côrte do Khediva, parte para o harem do Sultão, senhor suzerano do Egypto, parte para as cohortes cerradas de funccionarios estrangeiros, parte, uma grande parte, para pagar os coupons de divida em Pariz e Londres, ficando tão pouco para as necessidades do paiz, que havia dois annos que quasi se não dava soldo ao exercito!

Arabi não negava a divida externa, contrahida por esse esplendido perdulario Ismail-Pachá, mas reconhecida pela nação e garantida pela sua honra:—sómente não admittia que a França e a Inglaterra estivessem installadas no Cairo, á bocca dos cofres, esperando a chegada do imposto, para empolgar uma parte leonina; de tal sorte, que, para satisfazer a voracidade do credor europeu, esmagava-se com tributos o fellah, que, por mais que se esfalfasse dia e noite, tinha por fim de recorrer ao usurario europeu. Cousa estupenda! A Europa apresentava-se officialmente como credora, e, para se fazer embolsar, fornecia secretamente o agiota!...

Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a situação dos estrangeiros no Egypto. Havia ahi pretenções monstruosas. Arabi exigia que se abolisse o privilegio pelo qual os estrangeiros estabelecidos no Egypto e enriquecendo no Egypto não pagam imposto. O desalmado queria que não houvesse esses tribunaes de excepção para os estrangeiros, que, sob o nome de tribunaes mixtos, distribuem duas justiças—uma de mel para o europeu, outra de fel para o arabe. Emfim, esse homem fatal pretendia que os empregos publicos não fossem dados exclusivamente a estrangeiros—e que se não pagassem annualmente, como se pagavam, mais de trez mil contos de bom dinheiro egypcio, a francezes, inglezes e italianos repoltreados em sinecuras em todas as repartições do valle do Nilo, e quasi todos tão uteis ao estado como aquelle inglez que, com uma carta de recommendação de Lord Palmerston, foi nomeado coronel do exercito egypcio e ao fim de nove annos, depois de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda não tinha visto o seu regimento e ainda mesmo não tinha uniforme!

Taes eram, em resumo, as abominaveis idéas de Arabi, e não se imagina facilmente a apopletica indignação que ellas causaram á França republicana e á livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma féra. Na Bolsa de Pariz, no Stock-exchange de Londres, onde os fundos egypcios tinham descido, pedia-se com energia a suppressão immediata d'esse iniquo aventureiro.