Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egypto, ameaçados nas suas pessoas e nos seus privilegios, enterneciam a Europa.
As potencias occidentaes trocaram as suas vistas, segundo a hedionda phrase diplomatica, e concordou-se que o Egypto estava em anarchia. O Khediva, esse já se declarara coacto, e urgia descoactar rapidamente esse amavel principe, tão doce ao estrangeiro. A Inglaterra e a França, pois, (paizes que dizem ter interesses superiores no Egypto) mandaram as suas esquadras ás aguas de Alexandria, para aterrar Arabi. Póde-se perguntar até que ponto seis couraçados, sem tropas de desembarque e ancorados n'uma bahia, conseguiriam atarantar um ministro da guerra, seguro no Cairo, a dez horas de caminho de ferro, cercado de vinte mil homens de tropas regulares, apoiado por quatro milhões de população fellah, alliado aos grandes chefes beduinos, e sanctificado pela approvação religiosa dos Ulemas...
Hoje, aquelles mesmos que aconselharam essa manifestação, como o Times, confessam com o rubor nas columnas, que foi uma insensatez. Em todo o caso fez-se—e acompanhada de um documento, um papelucho diplomatico que, pelo comico intenso do seu conteúdo, parecia arrancado a alguma farça descabellada de Labiche. Esse escripto, apresentado gravemente pelos consules de França e Inglaterra, intimava o Khediva a que demitisse Arabi, o exilasse para o Alto-Egypto, para além das cataractas, conservando-lhe, para o não descontentar de todo, as suas honras de pachá e os seus soldos de coronel! Não sentis aqui, amigos, toda a folia de um vaudeville? De um lado o Khediva abandonado, em palacio, envolvido por uma revolução victoriosa, refugiado na equivoca fidelidade de alguns ajudantes de campo e de alguns eunucos; do outro lado Arabi tendo por si o exercito, a nação, o deserto e as mesquitas. E a Europa suggere áquelle Khediva que desterre para a Nubia este Arabi! Conheceis cousa alguma que mais reclame a verve do chorado Offenbach? Os jornaes inglezes hoje confessam tambem entre dentes que o papelucho era estupido. Se o era! E estão d'ahi a vêr o resultado: Arabi encolheu os hombros, adjudicou-se mais o ministerio da marinha, e substituiu alguns dos outros ministros, antigos familiares do Khediva, por homens seus, gente de nervo e de arranque.
Perante esta resposta dada ao seu ultimatum, a Europa ficou, se me é licito este dizer irreverente—de orelha murcha. E então tomou a decisão das grandes crises; delegou diplomatas que se sentaram em torno de uma mesa de panno verde, e enterraram pensativamente a cabeça entre os punhos. Chamou-se a isto a Conferencia de Constantinopla. O seu fim, todo louvavel, era resolver a questão do Egypto.
E ainda lá está, fina e subtil, a resolver! Alexandria ardeu, deixou de existir; o canal de Suez é patrulhado por canhoneiras inglezas; o general Sir Garnet Wolseley marcha sobre o Cairo; a terra do Egypto é terra britannica—e ella ainda lá está, a resolver!
Quanta habilidade n'aquella assembléa! N'aquella assembléa quanta auctoridade! Ainda lá está...
Ainda lá está, á margem das aguas doces do Bosphoro, em torno da mesa de panno verde, com a cabeça enterrada entre os punhos!...
Depois de reunida a Conferencia, a Europa, naturalmente, lembrou-se que o Egypto é ainda uma dependencia dos estados do Sultão, paga tributo ao Sultão, e que portanto ao Sultão competia ir restabelecer a ordem nos seus agitados dominios.
Questão obscura e embrulhada, esta das relações do Egypto com a Turquia.
É o Khediva um principe vassallo? A diplomacia hesita. Por um lado, os Khedivas succedem-se por hereditariedade, têm exercito, armam marinha, cunham moeda, declaram guerras, fazem tratados; por outro lado, pagam tributo. Mas constitue elle uma affirmação de vassalagem de pachá a sultão? É uma simples offerta de principe mussulmano ao chefe do Islam, como o presente que o rei catholico de Hespanha manda todos os annos ao papa? É uma prestação annual da tremenda somma, porque Mehemet-Ali e depois Ismail-Pachá compraram aos Osmanlis a sua independencia? É simplesmente um pourboire?... Seja como fôr, o tributo existe—e, fundado n'elle, a Europa appellou para o Sultão. Arabi, bom crente, devia venerar o Sultão; o Sultão, bom pae, podia exterminar Arabi. E aqui começa a famosa comedia das vacillações do Sultão.