Por um lado, o Sultão desejaria mandar tropas ao Egypto, occupal-o sob o pretexto de o tranquillisar e refazer d'elle uma provincia turca, um pachalato dependente do serralho, tal qual era antes de Mehemet-Ali, quando na riqueza do valle do Nilo estava o verdadeiro thesouro dos califas; por outro lado, porém, o Sultão não queria desembarcar no Egypto como cabo de policia da Europa, pela razão de que, prevendo este caso, os ulemas da mesquita d'El-Azhar, o grande centro religioso e o grande centro lettrado do Islam, o Vaticano e a Sorbona do Oriente, possuindo no mundo mussulmano uma auctoridade igual á de um Concilio no mundo catholico,—tinham declarado que se o Sultão, em nome da Europa christã, pegasse em armas contra gente mahometana, tornava-se ipso facto apostata, e ipso facto perdia o califado. Por um lado tambem o Sultão, tendo, ao que se diz, recebido de Arabi promessas de depor o Khediva e proclamar em seu logar Helim-Pachá, que é em Constantinopla o conselheiro e o favorito do serralho—conspirava com Arabi contra o Khediva; mas por outro lado, tinha noticia das intelligencias de Arabi com o scherif de Meca, que, sendo o descendente directo de Mahomet, possue mais que o Sultão direitos ao califado, e é n'esta santa pretensão apoiado por todas as tribus da Arabia; e, receiando assim que Arabi se tornasse o auctor de um scisma no islamismo, o Sultão procurava minar-lhe a influencia crescente—e conspirava com o Khediva contra Arabi. Por um lado ainda, uma vaga revolução constitucional em paiz mussulmano era odiosa ao Sultão; mas, por outro, a maneira como Arabi, alma d'esse movimento, estava tratando d'alto parte da Europa colligada, lisongeava profundamente o seu coração turco. Emfim, este miserando chefe dos crentes não sabia onde havia de dar com a sua cabeça imperial... Não se pense, por este dizer ligeiro, que eu não respeito o Sultão: Abdul-Hamid não é um califa do antigo typo, embrutecido pelo uso de tres mil mulheres,—mas, segundo a expressão do principe de Bismarck, «um dos espiritos mais finos da Europa». Ora, o principe de Bismarck é um entendedor; ainda que, a meu vêr, duas cousas estragam esta famosa finura: primeira o ser excessiva, de modo que Abdul-Hamid, a maior parte das vezes, tropeça e fica enredado na engenhosa complicação dos seus proprios fios; depois o estar ao serviço, não de idéas praticas, mas de fantasias mysticas, como a que se lhe attribue de renovar, na ordem espiritual e em seu proveito, o imperio prophetico de Mahomet.

Emfim, instado pela Europa a intervir no Egypto, e não querendo que a Europa interviesse, porque isso seria a perda do seu pingue tributo annual, o Sultão decidiu-se a enviar Dervich-Pachá, uma velha raposa podre de manhas, com a missão de fazer reentrar Arabi no aprisco dos humildes. Mas apenas Dervich-Pachá começava esta operação, eis que o Sultão inquieto, vendo Arabi e o scherif de Meca de mãos dadas sobre o tumulo do Propheta, remette a Arabi a grande ordem do Medjidieh, a mais nobre condecoração turca, o favor supremo que póde cahir das mãos do califa, acompanhada de uma florida carta de amizade e d'uma esplendida placa de diamantes.

Isto tudo dá a medida da confusão do Grão-Turco.

Arabi, assim glorificado pelo califa, resplandeceu aos olhos do mundo mussulmano com um prestigio maior; Dervich-Pachá, um instante aturdido, redobrou de duplicidade:—e foi então entre Dervich, e Arabi, e o Khediva, e o Sultão, e as potencias, e os consules, e os pachás, e os coroneis, uma intriga tão emaranhada que eu prefiriria fazer-lhes um resumo lucido dos vinte e cinco volumes das Façanhas de Rocambole, do que penetrar na espessura inextricavel d'este embroglio turco-europeu—uma d'essas intrigas fastidiosas que devem enervar, fazer chorar de séca e de fadiga a Providencia, se ella, como affirmam philosophos que estão na sua intimidade, é obrigada a observar minuciosamente todos os successos humanos! Quanto o homem com a sua tolice deve, por vezes, fazer bocejar Deus!

Durante estes successos, emquanto a Europa chafurdava no atoleiro diplomatico, as duas esquadras de França e de Inglaterra, lá continuavam deante de Alexandria manifestando. Do romper do sol ao occaso, immoveis nas aguas calmas, com as camisolas da marujada seccando nas vergas, alli estavam manifestando...

Os officiaes repousavam de vez em quando d'esta rigida attitude de manifestação arranjando um pic-nic em terra, indo fazer um robber de whist ao club inglez, ou organisando, sob as sombras dos jardins de Ramleh, honestas partidas de cricket.

[ III]

[ Episodio oriental.—Mussulmanos e christãos.—Uma estrumeira social.—Opiniões de mesa redonda.—Os funccionarios europeus do Cairo.—As dividas d'Ismail-Pachá.—O dia 11 de junho.]

Achando-se as cousas assim, amanheceu o dia 11 de junho, que d'ora em deante na historia—n'esse curto instante de notoriedade humana, que emphaticamente se chama a historia—será conhecido por este gallicismo: o massacre de Alexandria.