Por outro lado, os egypcios olhavam para o europeu como para a ultima e mais terrivel praga do Egypto, uma outra invasão de gafanhotos, descendo—não do céo, onde ruge a colera de Jehovah, mas dos paquetes do Mediterraneo, com a sua chapeleira na mão—a alastrar, devorar as riquezas do valle do Nilo. E este prejuizo não é especial ás classes incultas: o pachá mais bem informado, educado em França, lendo como nós a Revista dos Dous Mundos, nunca reconhecerá o que o Egypto deve á energia, á sciencia, ao capital europeu; para elle, como para o ultimo burriqueiro das praças do Cairo, o europeu é mais que o intruso—é o intrujão.
O arabe de modo nenhum se julga inferior a nós; as nossas industrias, as nossas invenções não o deslumbram; e estou mesmo que, do calmo repouso dos seus harens, o grande ruido que nós fazemos sobre a terra, lhe parece uma vã agitação. Elle sente por nós o pasmo misturado de desdém que póde sentir um philosopho, vendo trabalhar um pelotiqueiro. O pensador diz comsigo que não é capaz de equilibrar uma espingarda sobre o nariz, e lamenta-o; mas consola-se reflectindo que o saltimbanco não é susceptivel de ligar duas idéas. Assim, o mussulmano admira um momento o nosso gaz, os nossos apparelhos, os nossos realejos, todo o nosso genio mecanico; depois cofia a barba, sorri, e pensa comsigo: «Tudo aquillo prova paciencia e engenho, mas eu tenho dentro em mim alguma cousa de melhor, e superior mesmo ao vapor e á electricidade—é a perfeição moral que me dá a lei de Mahomet.»
De resto, nós o sabemos pelas xacaras da nossa mocidade, sempre o crescente detestou a cruz; e póde-se imaginar quaes são os seus sentimentos, agora que a cruz, em logar de o combater como paladino, o explora como agiota.
Se em cidades como Damasco ou Beyrouth o europeu touriste inoffensivo, que passa com a bolsa aberta, excita olhares e murmurios de odio, sómente porque tudo n'elle é differente, desde os dogmas da sua religião até á fórma do seu chapéo—calcule-se o que se dá em cidades como Alexandria e como Tunis, onde o europeu não é touriste amavel que distribue gorgetas, mas o agenciador soffrego que vem instalar-se alli como em terra que conquistasse para arredondar depressa um peculio, sob a bandeira do seu consul.
Accrescente-se que no Egypto o europeu apparecia aos olhos do arabe com o caracter odioso de um privilegiado.
Uma cousa parecia intoleravel—é que o europeu empolgasse todos os logares, todos, desde as gordas sinecuras até os diminutos empregos de cem francos por mez.
Vagava um obscuro posto de carteiro ou de telegraphista—e concorriam, de um lado um arabe honesto e activo, do outro um sacripanta de nacionalidade grega ou malteza. A quem se dava o emprego? Ao sacripanta.
Este systema, fecundo a principio, quando o Egypto era uma barbara provincia turca, e os europeus chamados eram homens de saber especial e de integridade, começou no tempo de Mehemet-Ali, que tentava fazer uma nação sobre as ruinas do velho pachalato, e que convidava para essa obra a sciencia e o capital europeu: continuou depois com Said-Pachá, esse delicioso bon-vivant, tão francez que passava os dias a fazer calembourgs, e que não admittiria em torno de si, e nas repartições do estado, senão cavalheiros capazes de apreciar o Charivari; mas a grande invasão de empregados europeus consumou-se no tempo de Ismail-Pachá,—que acceitava tudo o que vinha da Europa, os especialistas e os vadios, os que traziam uma idéa e os que só traziam dividas...
O Egypto renovou então a velha lenda do El-Dorado. Quem em Pariz, ou em Londres, ou em Roma, se via filado pelos credores, com a derradeira sobrecasaca a coçar-se nos cotovellos, e sem poder voltar ao seu club, por dever dez francos ao porteiro, obtinha de um diplomata ou de um principe uma carta de recommendação para o Khediva e tomava o paquete de Alexandria.
Lá, nos primeiros dias, tinha o hotel pago por Sua Alteza—ao fim do mez emprego dado por Sua Alteza. Qualquer cousa: se era um velho tenor de sala, já sem voz, nomeava-se coronel de cavallaria; se era um militar desacreditado, despachava-se inspector das escolas. Quem não podia alcançar uma carta para o Khediva, ia rojar-se aos pés do consul. Quem não ousava apresentar-se ao consul, empregava as influencias transversaes do paço, as mais poderosas—os eunucos, os cosinheiros, as dançarinas... O emprego vinha, facil e pingue. E o fellah pagava toda a malta.